10 coisas “espirituais” que as pessoas fazem e são uma total besteira

Cada vez mais as pessoas se dedicam a estarem em maior contato com seu lado espiritual, por conta dos benefícios que essa escolha de vida traz para corpo, alma e espírito. No entanto, é preciso estar atento, para não ficar preso em armadilhas do ego.

Quando entramos em modo de escape espiritual, podemos acabar praticando uma espiritualidade que não nos ajuda a evoluir, pelo contrário, só nos afasta de nós mesmos e das pessoas ao nosso redor, mantendo-nos em uma realidade de vida limitada.

O termo escape espiritual foi cunhado pelo psicólogo John Welwood na década de 1980, e se refere ao uso de práticas espirituais e crenças como uma maneira de evitarmos o contato com sentimentos, feridas e necessidades que vivem em nós mesmos, e que acabam por prejudicar nossas vidas.

Em seu livro “Spiritual Bypassing: When Spirituality Disconnects Us From What Really Matters”, Robert Augustus Masters escreve o seguinte sobre escape espiritual:

“Os aspectos do escape espiritual incluem desapego exagerado, anestesia emocional e repressão, excesso de ênfase no positivo, raivafobia, cegueira ou compaixão tolerante demais, limites fracos ou muito pobres, desenvolvimento desequilibrado (a inteligência cognitiva geralmente está bem à frente da inteligência emocional e moral), julgamento prejudicado sobre a negatividade ou o lado sombrio de alguém, desvalorização do pessoal em relação ao espiritual e a ilusão de ter alcançado um nível mais alto de ser.”

Todos nós podemos praticar o escape espiritual, mesmo que sem consciência. Por isso, é importante reconhecermos hábitos que estão relacionados a essa prática para que possamos substituí-los por outros mais saudáveis.

Abaixo apresentamos 10 desses hábitos que parecem ser espirituais, mas, na realidade, são uma perda de tempo.

Leia sem julgar a si mesmo ou às pessoas ao seu redor. Concentre-se em evoluir e praticar uma espiritualidade mais honesta e que o leve a caminhos melhores.

10 coisas “espirituais” que as pessoas fazem e são uma total besteira:

1. Participar de atividades “espirituais” para se sentir superior a outras pessoas.

Creio que todos nós já fizemos isso em algum momento da vida. Podemos nos sentir superiores porque escolhemos uma dieta mas saudável, porque optamos por leituras clássicas, porque queimamos sálvia em nossas casas, porque nos dedicamos a atividades como meditação e yoga ou porque usamos bicicleta ao invés de carro nos dias de semana.

Não há nada de errado com essas atividades. Pelo contrário, elas realmente fazem a diferença. O que não é saudável é pensar que você é superior às outras pessoas apenas porque está fazendo essas escolhas para a sua vida. Quando agimos a partir do ego, nossa espiritualidade não evolui, apenas nos torna pessoas egoístas com um falso senso de grandeza.


2. Usar a “espiritualidade” como justificativa para o fracasso ao assumir a responsabilidade dos seus atos.

Os mantras espirituais são muito significativos e reflexivos, mas precisam ser usados no contexto certo, ou perdem todo o significado. Muitas pessoas os usam como desculpas para seus próprios comportamentos errados.

Se você não é uma pessoa confiável, desvaloriza as pessoas que sempre estão ao seu lado e não demonstra nem um pouco de gratidão por tudo o que tem, mantras como “tudo acontece por uma razão” ou “as coisas são o que são”, não vão ajudá-lo. O que você precisa é transformar a si mesmo como pessoa e se tornar o que de fato essas reflexões falam.

Outro aspecto importante é desenvolver a maturidade e a capacidade de ouvir. Não importa em qual nível “espiritual” você esteja, sempre haverá coisas para melhorar. Portanto, precisa encarar os desconfortos com outras pessoas como a vida real, e não como uma prova de que essas pessoas “não respeitam quem você é”, ou  “precisa crescer espiritualmente”.

Saber que está longe da perfeição e que a vida consiste em constantes aprendizados é uma parte da espiritualidade.


3. Adotar novos hobbies, interesses e crenças simplesmente porque são a última moda “espiritual”.

Graças à nossa necessidade natural de nos sentirmos pertencentes a algo, criamos grupos em diversas áreas da vida. Com a espiritualidade não é diferente. As pessoas que escolhem seguir esse caminho também formam suas próprias redes de apoio. E, por mais que isso seja positivo, também é preciso estar atento.

Muitos veem a espiritualidade como uma moda, e pensam que para estarem realmente dentro do movimento precisam incorporar certas coisas às suas vidas, como determinados estilos de roupas, atividades, eventos e comportamentos. Para essas pessoas, é isso que as torna espirituais, mas se esquecem de que existe um trabalho interno a ser feito.


4. Julgar outras pessoas por expressar raiva ou outras emoções fortes, mesmo quando necessário.

Esse comportamento se torna comum para muitas pessoas que começam a se conectar com a espiritualidade. Quando alguém ao seu redor se magoa com alguma das suas atitudes, elas podem dizer coisas como “se todos ficassem mais calmos, os problemas não iriam ser tão grandes” ou “não sei por que você está tão estressado, isso não resolve nada”.

Essas pessoas podem assumir para si mesmas que a raiva é negativa e destrutiva em todos os aspectos, e que representa apenas as pessoas não espirituais, mas isso está um pouco longe da verdade. A raiva é uma emoção que faz parte de quem somos, e em muitas situações é compreensível, afinal coloca luz sobre várias coisas que precisam de uma solução em nossas vidas.

Não é saudável reprimir essas emoções por considerá-las erradas e tentar incorporar mais das características “espirituais” como compaixão, bondade e equanimidade sem verdade. Isso leva a uma vida de mentiras. Aceitar a própria condição humana é essencial.


5. Usar “espiritualidade” como justificativa para uso excessivo de drogas.

Muitas pessoas acreditam que o uso de substâncias psicodélicas pode levar a experiências místicas e elevar a espiritualidade. Essa é a uma opinião que cabe a cada um de nós e até aí tudo bem. O problema realmente começa quando vão longe demais e agem como se não existisse um lado negativo em tudo isso.

É preciso ter sabedoria e equilíbrio.


6. Enfatizar demais a “positividade” para evitar olhar para os problemas em suas vidas e no mundo.

Algumas pessoas espirituais utilizam a positividade como uma maneira de evitar o confronto com questões internas e problemas que assolam o mundo. Cada vez mais esse tipo de atitude de positividade e gratidão é incentivada, o que é muito positivo, mas parece que as pessoas estão se esquecendo de algo muito importante: as coisas negativas da vida não somem apenas porque decidimos fingir que elas não estão ali. Geralmente o que acontece é o oposto, quanto mais as negligenciamos, mais crescem.

Não é saudável acreditar que apenas a positividade vai resolver problemas sérios do mundo, como pobreza, desigualdade social e até mesmo mudanças climáticas. Precisamos fazer algo mais, ter atitude para buscar soluções para esses problemas que afetam todo o mundo.


7. Reprimir emoções desagradáveis que não se encaixam na narrativa “espiritual”.

Ainda que trabalhemos para evoluir nosso lado espiritual, continuamos humanos, com muitas questões internas, sentimentos e choques de realidade. A qualquer momento podemos ser surpreendidos por sentimentos de solidão e insegurança, e quanto mais evitamos esses sentimentos, mais nos afastamos de uma evolução.

Nunca seremos zen ou iluminados demais para evitarmos os sofrimentos mais básicos de nossa espécie, isso faz parte de quem somos. Devemos ser honestos com nós mesmos e nos permitirmos sentir tudo o que precisamos, para assim aprendermos e evoluirmos.


8. Sentir profunda aversão e autoaversão quando confrontado com seu lado sombrio.

É fácil nos sentirmos grandes sábios, quase incapazes de erros, quando estamos desenvolvendo a espiritualidade. Baseamo-nos em grandes sábios como Dalai Lama e Buda, os quais julgamos perfeitos, e acreditamos que seguindo o mesmo caminho, também seremos imunes de falhas mundanas, de pessoas comuns.

No entanto, é preciso reconhecer que a perfeição é algo inatingível, mesmo para aqueles que atingiram um grande nível de percepção, que os faz agir da maneira certa em praticamente todas as situações.

A realidade é que todos somos falhos e cometeremos inúmeros erros na vida. Cabe a nós apenas aprender com eles e nos esforçarmos para sermos melhores a cada novo dia.

Os ensinamentos espirituais podem nos fazer definir padrões muito elevados para nós mesmos, o que resulta em culpa e aversão, quando não somos capazes. Por isso muitas pessoas acabam se esquivando dessa responsabilidade. Reconhecer a própria imperfeição não é fácil.

Entenda que, para crescer, é fundamental ser honesto consigo mesmo sobre suas imperfeições. Cometer erros é normal, mas aprender com eles é o que nos faz evoluir.


9. Encontrar-se em situações ruins devido à excessiva tolerância e uma recusa a distinguir pessoas.

A espiritualidade pode nos fazer acreditar que todas as pessoas merecem ser tratadas com bondade e compaixão, e dessa maneira muitas vezes podemos nos colocar em situações arriscadas e completamente perigosas, pois confiamos muito naqueles ao nosso redor, sendo compreensivos e gentis, quando na verdade deveríamos aprender a reconhecer o seu lado sombrio.

Não podemos permitir que a espiritualidade se confunda com ingenuidade. Ser bonzinho não é a solução para todos os dilemas da vida.

Muitas pessoas cresceram em uma realidade muito difícil, em que têm de lutar pela própria sobrevivência. Ensinaram a essas pessoas que precisam se aproveitar da fragilidade de outras para conseguirem o seu sustento, e por isso não demonstram compaixão. É nesse sentido que precisamos nos cuidar, ficarmos mais espertos para a realidade e tomarmos medidas de proteção, como:

  • não ficarmos sozinhos pelas ruas, especialmente quando já é noite;
  • mantermos distância de áreas desertas e abandonadas;
  • mão mostrarmos vulnerabilidade.

10. Querer tanto que várias práticas “espirituais” estejam corretas ao ponto de ignorar completamente a ciência.

Muitas pessoas espirituais desenvolvem uma aversão à ciência, apenas porque certos hábitos que incorporam em suas vidas não são relevantes para a comunidade científica. No entanto, isso não significa que a ciência detesta a espiritualidade ou que não a considera como verdadeira ou importante, significa apenas que ainda não conseguiram comprovar essas práticas através de experimentos de laboratório.

A ciência é fundamental para a nossa existência, porque nos permitiu fazer descobertas incríveis sobre a nossa história, a maneira como evoluímos, e nos permitiu conhecer mais sobre o mundo ao nosso redor. Não podemos simplesmente descartá-la.

Inspiremo-nos pelas palavras de Carl Sagan:

“A ciência não é apenas compatível com a espiritualidade; é uma fonte profunda de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar em uma imensidão de anos-luz e na passagem dos tempos, quando percebemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então esse sentimento crescente, essa sensação de exaltação e humildade combinada, é certamente espiritual.”

“Assim como nossas emoções na presença de uma grande arte, música ou literatura, ou de atos exemplares de coragem altruísta, como os de Mohandas Gandhi ou Martin Luther King Jr.”

“A noção de que a ciência e a espiritualidade são, de algum modo, mutuamente exclusivas, é um desserviço para ambas.”

Bônus – Deixar de lado o sucesso material por causa da crença de que dinheiro e capitalismo são ruins.

Muitas pessoas acabam tomando uma postura muito dura em relação ao próprio dinheiro, por isso sabotam a si mesmas, quando se trata de sucesso profissional e financeiro.

Elas sentem que a riqueza é uma coisa negativa, que só traz coisas ruins para nossas vidas, e que o capitalismo é a fonte dos sofrimentos do mundo e deve ser destruído. Mas a situação é muito mais complexa do que podemos perceber.

É evidente que o capitalismo trouxe muitas coisas negativas para o mundo, e que devemos lutar contra o consumismo, mas também devemos compreender que, graças ao capitalismo, o mundo mudou para melhor e muitas pessoas foram tiradas da pobreza.

Em 1820, 94% das pessoas na Terra viviam na extrema pobreza. Em 2015, o número despencou para 9,6%, e essa mudança positiva muito se deve ao crescimento econômico catalisado pelo capitalismo.

Não há problema em querer ter dinheiro. Inclusive, muitos bilionários de nosso mundo, como Bill Gates e Elon Musk constantemente investem seu capital em projetos que transformam o mundo para melhor, o que mostra que dinheiro não é usado apenas para o mal.

O mundo pode se tornar um lugar ainda melhor, se usarmos o capitalismo para o bem, criando mais oportunidades para crescimento e preservação de nosso meio ambiente.

Estamos todos em um caminho de aprendizagem e evolução.

Os sinais listados acima estão muito presentes na comunidade espiritual, e qualquer seguidor pode se encontrar praticando algum deles em um momento ou outro, afinal todos somos falhos, apesar de nos esforçarmos para seguir um caminho mais evoluído.

Mesmo nesse caminho podemos nos encontrar presos em armadilhas que, apesar de nos passar a sensação de que fazemos tudo certo, acaba por nos incentivar a manter crenças e comportamentos limitantes, que apenas atrapalha nosso processo de evolução.

Uma das grandes verdades da espiritualidade é que o crescimento e o aprendizado são constantes. Se em algum momento você sente que já sabe tudo o que precisa e que não há mais nada a aprender com o mundo ou as pessoas ao seu redor, você está se limitando de diversas maneiras.

A espiritualidade é uma força poderosa, que nos ajuda a entender nosso papel no mundo em que vivemos, a nos conectarmos aos cosmos e vivermos com mais significado. Ela nos motiva a criarmos um futuro mais consciente e feliz para nós mesmos. Seu objetivo é nos elevar, nunca diminuir. Por isso devemos estar sempre atentos aos nossos comportamentos, se servem ao mesmo propósito.

Que depois dessa leitura você possa reavaliar sua relação com a espiritualidade e fazer as mudanças necessárias para viver com mais verdade.

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