A crise na educação

O caos educacional está deflagrado.



Já há algumas décadas, a questão da educação em nosso país transformou-se numa “batata quente” de culpa e insatisfação generalizada, que governos, professores, pais e alunos jogam uns para os outros, sem chegar a nenhuma solução. As tentativas através de propostas geradas pelos altos escalões governamentais, como Cieps, Fundef, Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e temas transversais perderam-se no caminho de descida até as salas de aula, transformando-se, alguns deles, como no caso dos PCNs, em grossos volumes esquecidos no fundo dos armários das secretarias dos colégios.

Enquanto isso, as salas de aula transformaram-se num campo de batalha, onde o professor luta para cumprir o seu programa de ensino, os alunos lutam para vencer o tédio e o desinteresse por tudo que lhes é ensinado, os pais lutam para que os filhos recebam um certificado e os diretores lutam para manter a coesão de um sistema já fragmentado, porque se tornou obsoleto diante das grandes transformações que caracterizam a sociedade atual.

O caos educacional está deflagrado. Até mesmo nas escolas particulares, onde as instalações luxuosas tentam passar uma imagem de qualidade, a crise educacional contamina toda a estrutura de ensino, numa espécie de guerrilha urbana, que ocasiona eventuais explosões de insatisfação de todas as partes envolvidas.


Sem compreender esses sintomas como um urgente pedido de socorro do organismo educacional para a efetiva cura de seus males, os responsáveis tentam abafá-los, recusam-se a dar-lhes atenção e a ouvir os seus apelos, como se isso os fizesse deixar de existir.

Na base desse angustiante problema, fatores gerados há algumas décadas mostram os seus efeitos perniciosos sobre as novas gerações, deixando-as despreparadas para as exigências deste mundo globalizado e cheio de desafios, pois não há uma educação para a vida.

Citamos aqui alguns desses fatores, sem que a ordem em que eles estão sendo abordados signifique que um seja mais significativo do que o outro, mas sinalizando que eles interligam-se numa rede complexa, como num novelo em que cada fio precisa ser puxado e desenrolado dos demais, exigindo solução específica para o seu caso.


A primeira questão a ser levantada refere-se à diferença entre professores (enquanto meros transmissores de conhecimento) e educadores (aqueles que, por vocação, dedicam-se à formação dos jovens, preparando-os para a vida).

Grande percentual de profissionais da educação está ali movido pelas circunstâncias que os impediram de seguir a própria vocação e os levaram a buscar na profissão apenas um emprego seguro.

A segunda questão, não menos grave do que a primeira, refere-se à remuneração do professor, nos concursos públicos; profissionais de outras áreas, tais como médicos, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e fonoaudiólogos, com o mesmo nível de graduação universitária que o professor de ensino médio, têm piso salarial três vezes maior, tornando-se flagrante a desvalorização do trabalho de um profissional, de cuja atuação depende a estrutura básica de qualquer país que deseje alcançar os padrões do primeiro mundo.

A terceira questão é que, em consequência dessa insatisfação, a maioria dos profissionais de ensino olha com descaso e ironia para os projetos de educação continuada, que lhes impingem pacotes de atualização profissional, que não lhes trazem as tão desejadas soluções para os graves problemas que vivenciam nas salas de aula.

A quarta questão, que decorre e se soma às anteriores, é que, desatualizados, os professores têm como meta de trabalho não a identificação do que o aluno realmente necessita aprender, mas o cumprimento dos objetivos educacionais estabelecidos no planejamento anual, os quais, muitas vezes, vêm sendo monotonamente repetidos, sem nenhuma correlação com a realidade de vida do aluno, quer seja em termos de conteúdo, quer seja em termos de metodologia.

Muitos conteúdos estão tão distanciados da realidade, que jamais serão utilizados; o quadro de giz, quando comparado à alta tecnologia do mundo atual, mesmo para crianças que têm acesso apenas à televisão, é um recurso tão ultrapassado, que exigirá enorme esforço de atenção por parte deles, cujas mentes habituadas ao movimento e agitação do mundo moderno irão se dispersar em busca de outras ideias mais atrativas.

A quinta questão, tão grave quanto as anteriores, refere-se à desestruturação familiar ocorrida nestas últimas duas décadas, que tem como perfil a mãe que trabalha sozinha para sustentar três, quatro ou mais filhos, um de cada pai, estes quase sempre ausentes em relação às suas responsabilidades, expressando a crise de paternidade, que caracteriza a nossa sociedade de hoje. Isso sem falarmos da grande quantidade de crianças, filhas de adolescentes, que também foram filhas de adolescentes, de acordo com um padrão de contracultura que se difundiu, desde que os meios de comunicação de massa iniciaram o lucrativo bombardeio de exacerbação da sexualidade.

Diante da gravidade do problema, somente a instituição de um fórum permanente de educação, em que se dê voz e voto a cada um dos segmentos envolvidos na questão, aliado a uma efetiva vontade política de resolvê-lo, poderia apontar um caminho de solução que atendesse a todas as partes, numa espécie de contrato, em que nenhuma parte será obrigada a fazer o que não queira, mas em que cada parte assumirá a responsabilidade pela mudança do que lhe cabe diante das decisões tomadas.

Tal proposição exige a coragem daqueles que visualizam um novo tempo, o que implica numa mudança de estado de consciência, numa efetiva reformulação de mentalidade sobre o que é a educação, qual a sua origem, os seus meios e finalidades e, principalmente, sobre qual o papel social de cada uma das partes envolvidas.

O sucesso dessa reformulação será de vital importância para as novas gerações, que terão a difícil tarefa de recuperar este planeta já tão agredido pela cegueira evolutiva das gerações anteriores.

 

Direitos autorais da imagem de capa: Pixabay.

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