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A culpa é da mãe

Essa semana as declarações de Olinda Bolsonaro, mãe do deputado Jair Bolsonaro, viraram manchetes em vários jornais virtuais do país. Idosa, aparentemente modesta, as palavras foram simples: “criei com muito amor”. Dono de uma personalidade explosiva, Jair Bolsonaro coleciona no seu vocabulário palavras de baixo calão, preconceitos e agressividade. A notícia, entre outras, gerou na roda de amigos ou colegas de trabalho, a inicial discussão: Qual é a formação das pessoas preconceituosas, más ou criminosas? A resposta que obtive é quase unânime: A culpa é da mãe que não soube criar.



Nesse momento, reflito agora, sobre o fardo que a sociedade patriarcal e religiosa joga sobre os ombros da mulher. Não importa o que façamos, o quanto nos esforçamos, na menor falha: A culpa é nossa. Sim, me incluo na culpa, leitor. Nasci mulher, mas há também quem se torne mulher ao longo da vida e faça a via crúcis, mea culpa mea maxima culpa. Merecemos menores salários, merecemos estupro, merecemos companheiros agressivos, merecemos jornada dupla de trabalho, merecemos morrer em clínicas clandestinas de aborto. Merecemos tudo, menos amor e respeito.

Porque não dividir a responsabilidade com todos? Porque ignorar a sociedade violenta e doente como fruto de ações individuais e coletivas? A culpa é da mãe. A culpa é da política. A culpa é da polícia. A culpa é dos professores. A culpa pelos nossos próprios atos nunca é nossa. Estamos cegos na cultura cristã baseada na culpa, no medo, na submissão, na flagelação. Todo erro é digno de reparo e não, necessariamente, dor, punição e tortura. Mal conseguimos perceber a cegueira e o caos instalado entre nós. Perdemos o senso de responsabilidade, de humanidade e sensibilidade.

A culpa do crescimento da população carcerária brasileira é das mães? Em qual tribunal estivemos para julgar a dor que não nos pertence? Sobre qual mãe restará o apedrejamento social? Mãe erram, acertam, toleram e amam. Pais também. Filhos também. Está na hora de revermos o conceito de “culpa”, de ações e consequências. Erros são para serem corrigidos ou são trampolins para nossa natureza sádica? A ordem dos fatores altera, sim, o resultado, e nós precisamos nos reorganizar antes de fazer a conta errada.


 

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