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A culpa nossa de cada dia

No seu livro “A alma imoral”, Nilton Bonder diz que o ser humano é talvez a maior metáfora da própria evolução, cuja tarefa é transgredir algo estabelecido. Antes mesmo de conhecer a consciência e de se perceber nu, ou seja, um animal moral, o ser humano se deparou com uma dimensão de si capaz de transgredir e, provavelmente, projetada para si. Toda moral, toda tradição, toda religião e toda lei são produtos do corpo moral, de um animal moral. E toda sociedade está voltada para “vestir” a nudez do ser humano.



Segundo Aura Lago Lopes, psicanalista, membro do Colégio de Psicanálise da Bahia, na origem do sentimento de culpa, estaria presente uma renúncia ao instinto, por medo de perder o amor ou o seu equivalente, o medo da agressão por parte de uma autoridade externa. Em um segundo momento, organizar-se-ia uma autoridade interna, a consciência e, por medo dela, outras renúncias se dariam. O desejo indestrutível persiste e, não podendo ser escondido do superego, exige punição.

De certa forma, a consciência moral coloca-se como um impedimento na realização do desejo. O sujeito recua do seu desejo diante da maldade de si mesmo e do próximo, e é nessa recusa que surge a culpa. Lacan diz que “a análise é importante, além de outras razões, para que os homens compreendam que os seus desejos não são a mesma coisa que suas necessidades”.

O desejo é o que dá suporte ao inconsciente. O inconsciente é o que faz enveredar por uma trilha particular, exigindo que a dívida seja paga, e o inconsciente está sempre retornando e nos fazendo dar um sentido a nossa ação. Ceder ao desejo acompanha-se sempre no destino do sujeito de uma traição, ou ele trai a sua vida, ou ele é traído por alguém de quem tinha expectativas. Segundo Aura Lago Lopes, paga-se um preço pelo acesso ao desejo, paga-se com o corpo, com a carne, com o gozo. Da infelicidade e do mal-estar não podemos escapar. Estamos fadados e marcados pela culpa. Porém, essa é uma descoberta que se faz ao se enveredar por uma via, via esta que se trilha e se trama numa experiência individual e singular do sujeito.


Muitos sintomas que se manifestam em nosso corpo, desde uma dor nas mãos, um inchaço nas articulações, até uma dor insuportável nas costas, são sinais de um mal-estar que extrapola os limites do suportável. O corpo paga o preço pelo conflito do desejo e do socialmente aceito. Muitas vezes, está presente na dor física a dor de existir. Freud fala da satisfação que a doença pode propiciar na medida em que implica o castigo para um sentimento de culpa que permanece desconhecido para o sujeito. Ele afirma que mais além ou mais aquém da doença existe uma culpa que a alimenta:

[…] este sentimento de culpa permanece mudo para o enfermo. Não lhe diz que seja culpável, e desse modo o sujeito não se sente culpável, senão doente. Esse sentimento de culpa não se manifesta senão como resistência dificilmente redutível, contra a cura (FREUD, 1923).

A culpa pode cobrar preços muitos mais altos do que dores no corpo. Ela pode insistir numa vida inteira de penitência e de dor. Essa culpa pode ter origem num ato de omissão, num pensamento, que nossa consciência, com sua infinita sabedoria, considera pecaminoso. Sendo assim, como diz Judith Viorst, a doença da nossa mãe, o divórcio ou a morte dos nossos pais, nossas invejas e nossos ódios secretos, nossas gratificações sexuais solitárias – qualquer uma dessas coisas, ou todas –, podem vir a ser nossa culpa e nossa vergonha. E se o novo irmão ou a nova irmã que não queríamos e que desejávamos que desaparecesse vem a morrer – por doença ou acidente –, podemos nos julgar responsáveis, e – sem saber o que estamos pensando – dizer para nós mesmos: “Por que eu o matei? Por que não o salvei? Por quê?”. E nossa vida pode se chocar nas rochas dessa culpa inconsciente.

Segundo Freud, muitos pacientes que resistem ferozmente a qualquer alívio dos próprios sintomas, que parecem se agarrar à dor emocional, prendem-se a ela porque ela significa a punição que eles próprios não sabem que desejam, por crimes que nem sabem que cometeram. Entretanto, Freud faz notar que uma neurose resistente a todos os esforços do analista pode desaparecer de repente se o paciente faz o casamento infeliz, perde todo o dinheiro ou fica gravemente doente. “Nesses casos, (escreve Freud) uma forma de sofrimento é substituída por outra, e vemos que tudo o que importava era a possibilidade de manter uma certa quantidade de sofrimento”.


Sendo sujeitos “normais”, a questão culpa sempre nos acompanhará, cedendo ou não cedendo ao desejo. Consciente ou inconscientemente, manifestaremos sinais de que ela está conosco. Ela é incurável, insubordinável e intransferível. Ela é fruto das nossas escolhas. E, como veremos mais adiante, no capítulo “Minha culpa, minha tão grande culpa”, algumas vezes ela é apropriada e boa. Imprescindível para uma vida em sociedade. No entanto, a grande questão é admitirmos sua presença, porém sem torná-la a razão da nossa existência. É seguir buscando o bem-estar, com o desejo de entregar-se ao prazer de ser e ao de estar sendo, conscientes e realizados com nosso caminho.

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