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A felicidade precisa nos encontrar trabalhando

Conta-se que, uma vez, na casa de Pedro, o Mestre Jesus, apelando para o caráter pedagógico da parábola, deteve-se na história de um mercador de remédios, que – dedicado buscador da verdade e escolhido por Deus para a sua propagação – transportava ervas, xaropes e curativos da cidade para o campo, por meio de um jumento indócil.


Um dia, refletindo sobre os próprios defeitos, esse homem viu-se entristecido, julgando-se indigno de contribuir com o Grande Arquiteto do Universo, com tantas tendências para o mal.

Assim, ele seguiu com o seu trabalho de atendimento aos doentes, recusando-se a utilizar o seu famigerado dom da palavra, conhecimento e inspiração para instruí-los.

Assim, se por um lado a sua consciência apontava-lhe as imperfeições que o tornavam supostamente inapto a pregar a Palavra, por outro ele sentia ímpetos de fazê-lo, dando vazão à Divina Orientação que parecia gritar dentro de si.

Tal conflito, como não podia deixar de ser, levou o pobre servo ao desespero, suplicando esclarecimento do Grande Invisível, em oração. E eis que a resposta lhe veio, naquela mesma noite, em sonho.


No sonho, enquanto o mercador transportava uma carga para os doentes, montado em seu caprichoso jumento, um anjo lhe apareceu no caminho, pondo-se a questioná-lo sobre as traquinices do difícil animal. “Você faz ideia de quantos coices desferiu hoje esse animal? Tem ideia de quantas vezes ele deve ter mordido os seus companheiros de estrebaria?”

Nisso – conhecedor da teimosa natureza do seu jumento, mas aturdido diante dos questionamentos do emissário divino -, o mercador se viu impossibilitado de responder com exatidão, ao que o anjo, percebendo a confusão, disse-lhe: “Entretanto, é deste animal que você se utiliza para transportar os medicamentos que salvam muitos enfermos, distribuindo esperança, saúde e alegria, o que, por si só, faz dele um auxiliar precioso”. E o anjo prosseguiu: “Imagine se, a pretexto de ser rude e imperfeito, esse jumento se negasse a cooperar contigo, deixando ao léu os enfermos que dependem de você?”

Assim, o anjo orientou o mercador a retomar a abandonada tarefa de pregador da Palavra, a despeito de não ser ainda um ser iluminado, pois assim o Universo, testemunhando-lhe a boa vontade e dedicação em meio às limitações, lhe ofereceria o devido amparo e aprimoramento.


O final dessa parábola, é claro, se dá com o humilde mercador despertando do seu sonho e, grato pela resposta obtida, ajustando a própria conduta e seguindo firme no propósito de sua alma.

Quando tomei conhecimento dessa parábola, fiquei impressionado pelo quanto ela me fazia refletir sobre a situação em que eu vivia, bem como pela conexão que ela me possibilitou estabelecer com as tantas leituras às quais eu, habitualmente, me dedico no campo da espiritualidade, autoajuda e motivação. Você, certamente, já ouviu frases como “a inspiração existe, mas ela precisa encontrá-lo trabalhando”, “tudo depende de uma ação” ou até mesmo aquela que, equivocadamente, atribuem a Jesus e dizem estar na Bíblia – “faça a sua parte que eu o ajudarei”.

A grande verdade é que a parábola, bem como essas frases de efeito e outros tantos ensinamentos presentes na Filosofia, correntes universalistas e afins, revelam o caráter decisivo de nossas efetivas ações em prol do que desejamos.

Seja espiritual, material ou afetivo o seu objetivo, a sua concretização depende de firmes passos na direção deles. Ou seja: depende de uma ação.

Lembro-me que, iniciando a minha busca espiritual, me vi envolvido com diversas técnicas: iniciei a formação em Reiki, cheguei a me inscrever em uma formação em ThetaHealing, participei de vivência de Constelação Familiar, Leitura da Aura, terapia tântrica, Qi Gong, passe magnético, Magnified Healing, entre outros, isso sem falar em toda sorte de leituras às quais eu me dedicava nesse sentido. É claro que tais experiências tiveram o seu valor e importância. Tanto que ainda as busco. O problema aqui era a ansiedade e a motivação para que eu me envolvesse em tantas experiências.

Eu ansiava pela iluminação e recorria a tais experiências como se quisesse, por meio delas, acelerar a minha evolução para, então, ser feliz, sábio e, por conseguinte, servir. E, com base nisso, enchiam-me os olhos as vivências excessivamente dispendiosas que prometiam tornar-me criador de minha própria realidade, desenvolver a minha mediunidade ou ter experiências sobrenaturais. Ledo engano. Eu ignorava que, para o alcance de determinados objetivos, há etapas imprescindíveis na história de cada um.

Naturalmente, não estou falando negativamente das técnicas, vivências, cursos e livros. Como eu disse, ainda me dedico a tais experiências, pois elas, com o seu caráter terapêutico, nos dão insights interessantes e nos ajudam a traçar a nossa rota rumo ao encontro com nós mesmos.

O grande problema é quando as tomamos como “o caminho”, em lugar de vê-las como setas, como indicadores de algo passível de ser alcançado.

E esse meu jeito de “lutar” pelos meus objetivos não se restringia à busca espiritual. Não raro eu apostava na loteria tendo em mente que, tirando a sorte grande, eu finalmente faria os cursos que desejava, teria o meu tão sonhado apartamento e daria uma vida confortável para meus pais.

Enfim, havia sempre algo a se conquistar – sem a necessidade de empenho e trabalho – para que, então, eu colocasse os meus planos em ação. E, dessa forma, eu desconsiderava o intenso trabalho ao qual grandes mestres da humanidade e até mesmo pessoas comuns, do meu convívio, haviam se dedicado para lograr benefícios espirituais, financeiros, profissionais.

Nesse ponto, muitos poderiam me afirmar algo do tipo: “ah, mas você está se esquecendo do critério do menor esforço da Lei da Atração”. Decerto, não ignoro essa lei universal. Parece-me válido, porém, interpretá-la de maneira adequada, atentando-nos para o fato de que mesmo a Lei da Atração compreende processos de limpeza que não raro nos colocam diante de questões difíceis que carecem ser purificadas.

Ou seja: a busca honesta e dedicada pela concretização dos seus sonhos mais profundos, inevitavelmente, o colocará de frente com os desafios que a sua alma precisa atravessar.

Portanto, embasado em minha experiência pessoal, eu não o desaconselharia a recorrer aos cursos, vivências, trabalhos, técnicas. Pelo contrário, eu apenas acrescentaria uma única sugestão: comece antes de estar pronto. Não faça planos condicionados a possibilidades futuras – “quando eu for iluminado”, “quando eu for rico”, “quando eu tiver um grande amor”. Se os seus objetivos são reais e refletem o verdadeiro desejo de sua alma, vá atrás deles agora mesmo, ainda que “aos trancos e barrancos”, pois é esse movimento que o aproximará de tudo o que você necessita para, então, tornar-se abundante naquilo que almeja.

E isso não significa que o Criador esteja “pegando pesado” com você ou algo do tipo. Pelo contrário, significa que ele já nos proveu de tudo aquilo de que necessitamos para as grandes realizações.

Ademais, a necessidade do trabalho imediato configura-se ainda como um sutil convite do Universo para que vivamos a dádiva do agora, que nos reserva gratas oportunidades…

Portanto, repito: comece antes de estar pronto, pois a vida dos seus sonhos é perfeitamente factível, mas ela precisa encontrá-lo trabalhando.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123RF / Imagens





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