A força de um hábito: o desenvolvimento da sensibilidade através da prática da leitura

“É preciso amor para poder pulsar, é preciso paz para poder sorrir, é preciso a chuva para florir”.

Estes versos tão conhecidos de Almir Sater sugerem que, na vida, há uma condição de dependência para que uma situação aconteça. Do mesmo modo, penso que este é um princípio análogo na relação entre leitura e escrita. Neste sentido creio que é preciso ler para poder escrever. Mas não como uma regra ou um automatismo. É preciso ler como aventura que nos leva a escrever.

Ler é uma ação, é uma prática, um fazer. Como prática, a leitura exige do nosso corpo tanto quanto da nossa mente.

Como educador físico, e CEO da Academia de ginástica Atenas, busco despertar nos outros a consciência corporal que nasce com a prática responsável do exercício físico. Desta maneira, a prática da leitura desperta a consciência crítica de si mesmo. Muitas pessoas não conseguem ler continuamente, ou de forma mais apurada, porque ler é também um exercício físico dos mais extenuantes.

Todo escritor é primariamente um leitor. Evidentemente, nem todo leitor se tornará um escritor. Por isto, se um dia eu tive a ousadia de me aventurar a escrever (o que sinto, o que penso, o que vivencio), foi porque, felizmente, eu leio todos os dias, prazerosamente. Estou sempre bem acompanhado por livros.

Entretanto, além de ressaltar a importância da leitura, gostaria de chamar a sua atenção também para o conteúdo do que se pretende ler. Como nos alertou Carlos Drummond de Andrade, “há livros escritos para evitar espaços vazios na estante”.

Dessa forma o melhor é reconhecer as leituras imprescindíveis (como as obras clássicas), nesta hora a figura de um mentor ou curador também se mostra de grande valia, como foi no meu caso, por exemplo.

O meu primeiro contanto com a leitura aconteceu na infância. Eu e meus irmãos tivemos a oportunidade de conhecer desde cedo o poder da literatura. Lembro-me claramente de minha mãe lendo para nós os contos dos irmãos Grimm e outras histórias como as de Ali Babá e Nasrudin. Ela sempre comprou livros, mesmo quando muitos diziam que havia coisas mais importantes para se adquirir.

Foi graças aos bons estímulos dela (que também é uma leitora voraz, além de poeta) que, pouco a pouco, fomos nos tornando leitores sem saber ainda que mais tarde teríamos o horizonte da escrita como um lugar de estância. Sempre que penso na relação de minha mãe com os livros, e que tanto me inspirou, lembro-me de uma frase de Albert Schweitzer que faço questão de citar sempre que tenho a oportunidade: “Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros, é a única.”

Fico honrado, e entusiasmado, com o convite para ser colunista do site O Segredo. Espero conseguir mostrar aos possíveis leitores, a importância do hábito de ler, pois vejo a literatura como principal ferramenta para o autoconhecimento, que é, talvez, o saber mais difícil de alcançar.

Vale a pena ainda citar mais um grande autor, antes de encerrarmos este nosso primeiro encontro, Joseph Brodsky, prêmio Nobel de literatura de 1987, escreveu em seu discurso de premiação.

“A maioria das pessoas se alinha pela normalidade e pela mediocridade, mas para um homem que faz o que faço, a noção de uma linha reta como sendo a menor distância entre dois pontos perdeu sua atração há muito tempo.”

E penso exatamente da mesma forma, pois os caminhos que temos que transpor nunca se mostram retilíneos, ou como dizia o grande Guimarães Rosa, “Há de se ter paciência, já deveríamos ter aprendido de uma vez para sempre que o destino tem que fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: diignat / 123RF Imagens



Deixe seu comentário