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A gente enjoa de parecer rocha e resolve mostrar que é borboleta

A gente amadurece e perde a necessidade de camuflar afeição. Enxerga que ser gentil é ser humano e que transmitir o que sente é ser cortês consigo mesmo.



A gente passa muito tempo lutando contra a própria essência, fugindo da profundidade. Perde muita vida poupando atenção, disfarçando por compostura. A gente se veste do cavalo de Troia, acumulando toda estupidez e temor no meio. Vive longos prazos evitando a emoção, figurando o bom senso esperado.

Crescer também dói, estica a prudência, revela o caos, força o rabisco da melhor estrofe para virar refrão. A gente amadurece e deixa de esconder o desajuste, perde a necessidade de camuflar afeição. Enxerga que ser gentil é ser humano e que transmitir o que sente é ser cortês consigo mesmo.

A gente enjoa de parecer rocha e resolve mostrar que é borboleta tentando voar, ajustando as asas, testando as distâncias, medindo as alturas.

Assim aprende que se doar faz bem, que ajudar adoça, que confortar o outro nos torna muito mais sensatos que qualquer máscara de lucidez. Larga de evitar abraços, para de exibir o orgulho, esquece de forjar desinteresse. E então, passa achar que bonito mesmo é ser o avesso do desdém e que espalhar amor pelos quatro cantos, eleva e liberta.

Com o passar do tempo e depois de passar por alguns dissabores naturais e descaradamente humanos, acabamos por diminuir as pernadas, sossegar os barulhos, deixar o sol baixar e até dar boas-vindas à escuridão das noites sob o mais belo e resplandecente luar.


Pode demorar, pode ser diferente para cada um, mas chega o momento em que acolher e entender o outro acaba por ser obrigação; que abraços apertados passam a ser coloridos e que uma palavra ou sorriso dirão bem mais do que uma mensagem de texto. Chega o dia em que perdoar vira rotineiro, que deixar ir torna-se descomplicado, que nossa consciência tranquila e autoperdão passam a valer ouro.

Família nunca mais será berço de insatisfações e cobranças e sim de aconchego, quietude e felicidade.


Chega o dia em que você entende todas as aflições de sua mãe, os desagrados de seu pai e até as intolerâncias de seus irmãos e pondera, acolhe, refugia.

Tudo aquilo que era claro e evidente passa a ser discreto e estreito, o silêncio se torna benesse e você adquire leveza no olhar e cordura nas decisões. O mundo fica mais transparente, a cabeça em paz e o coração tranquilo. E percebe que crescer talvez seja isso, a descoberta de que a simplicidade é o esteio da vida e que de se desarmar e serenar é receita para encontrar plenitude através da generosidade e do amor.

 

Direitos autorais da imagem de capa: Olivia Collier/Unsplash.

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