A gente tem que se bastar sozinho!

A gente tem que se bastar. A gente tem que se bastar e ter a coragem de virar a página.  

Escrevi outro dia sobre a urgência de estar completos em nós mesmos. Escrevi sobre a necessidade de sermos suficientes e de fazermos as pazes com os nossos fantasmas e medos. Aceitar que algumas vezes caímos e que isso pode acontecer a qualquer momento. Mesmo depois de repetirmos em frente ao espelho afirmações positivas e mesmo depois de darmos tchau para aquele relacionamento tóxico ou para pessoas que nos fazem mais mal do que bem.

Contudo, sair dizendo por aí que a gente tem que se bastar sozinho para poder fugir a novos encontros e novos relacionamentos também não é o melhor caminho a se seguir. Na verdade, troca-se um problema por outro. A gente troca por algo ainda mais perigoso que relacionamentos tóxicos. Esconder-se nessa afirmação nos afasta da nossa essência.

Não somos seres que nasceram para viver sozinhos. Precisamos nos conectar. Precisamos do outro para completar o ciclo que começa com a gente se conhecendo e se reconhecendo. Mas não para por aí.

O que vejo como um grande entrave para alcançarmos relacionamentos maduros que nos tragam verdadeira satisfação é que normalmente pulamos para a última parte e queremos no outro aquilo que ainda nem ao menos sabemos sobre nós mesmos. Exigimos uma lista infindável de posturas e atitudes que nunca nos trarão satisfação porque tudo isso vem de uma exigência que nasce de uma falta de conhecimento interna da gente.

Pronto. Voltamos ao início. Vamos à jornada interna de nos bastarmos sozinhos. Completos em nós mesmos. Que a gente saiba do jeito que a gente gosta que arrumem a cama. Que a gente saiba como gostamos que montem a mesa. Que a gente saiba a música que mais gostamos. Que a gente saiba o tipo de café que mais nos satisfaz. Que a gente saiba se preferimos praia ou campo. Que a gente saiba sobre a gente o máximo que pudermos. E que a gente se sinta confortável com as escolhas que fazemos. Confiantes que as escolhas que fizemos tenham sido as melhores possíveis dentro de todas as possibilidades infinitas que tivemos (sempre as temos). Que a gente tenha a coragem de mudar de ideia quando for necessário.

Porém, que o se bastar sozinho não seja o final da linha nem o muro que se levante ao nosso redor. Nem a desculpa para fugir. Que o filme não acabe aí.

Digo por mim, andar só pelos caminhos tem lá o seu prazer, mas isso não é o suficiente. Precisamos nos permitir ao nível mais difícil de todos. Permitir que alguém atravesse essa bolha de segurança que criamos. Permitir que alguém se achegue à nossa alma e nos toque como nunca nem em sonho imaginamos. Que os dias sejam contados como antes e depois desse encontro.

Pode ser um pouco de exagero descrever assim, mas os sentimentos não foram feitos para ficarem trancados nem muito menos racionalizados o tempo todo. Nossas células de carbono, absurdamente ainda muito orgânicas exigem que os sentimentos venham à tona e transbordem.

E desse encontro com o outro, que a gente tenha a oportunidade de ainda mais uma vez nos tornarmos a pessoa que mais desejamos que esteja ao nosso lado e atrairemos, com certeza, as melhores companhias e parcerias ao longo dos caminhos que percorrermos.

Reflita sobre o que você deseja para si e não se desvie muito. Mas mude de ideia sempre que achar necessário. Se nós mesmos podemos mudar de ideia, então o outro também pode. Aceite que os caminhos se cruzam, se encontram e podem permanecer andando longas distâncias juntos, talvez até uma vida inteira, mas algumas vezes, são apenas algumas estações e não podemos exigir que o outro esteja ao nosso lado.

A gente tem que se bastar. Desfazer relações e círculos de dependência e carência. A gente tem que se bastar para poder aproveitar tudo o que o outro estiver disposto a compartilhar conosco. Não trazer para os novos relacionamentos os velhos paradigmas e os velhos medos.

A gente tem que se bastar e ter a coragem de virar a página. Dar tchau para o ontem e abrir os braços para acolher o hoje, que nos espera todos os dias e, certamente, uma das melhores experièncias que vamos ter.

Viver o hoje é se permitir, é amar a si mesmo, é o que melhor que pode nos acontecer.

Faça como eu. Permita-se!



Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: axelbueckert / 123RF Imagens



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