A INFLUÊNCIA DOS CONTOS DE FADAS



Cresci numa sociedade de contos de fadas, a ver a Cinderela, a Bela Adormecida e a Pequena Sereia e isso originou que absorvesse uma visão muito romântica da vida.

Não  tinha  consciência  desta  influência,  achava  que  a  tinha  ultrapassado,  mas  quando  me retirei do Mundo e fiquei sozinha com os meus pensamentos e fiz uma retrospectiva à minha vida, constatei que ainda existia resquícios dos contos de fada na minha mente.

Os  papéis  queimados  com  listas  de  desapego,  as  promessas  feitas  a  mim  mesma,  as reinvenções e os cursos tirados valeram o que valeram, mas não mudaram muito. Tudo serviu para compreender que nada disso serve, se não estiver enraizada no aqui e agora.

Muitas pessoas descartam a influência dos contos de fadas, mas na verdade eu olho para a minha vida e vejo a sua influência, olho para a vida de outras mulheres e continuo a sentir, mesmo  na  mulher  que  se diz  espiritualizada,  a  busca  incessante  de  uma  salvação  fora  de  si mesma.

Uma das  mensagens  dos  contos  de  fadas  é  que  a  heroína  é  uma  mulher  lindíssima  e  a  sua beleza é alvo da inveja e maldade de outras mulheres. Apesar da malvadez que lhe é dirigida ela é altruísta, inocente, pura, sabe perdoar, mas ao mesmo tempo é ingénua.

A  heroína  destaca-se  não  só  pela  sua  beleza  física,  mas  também  pelas  suas  maravilhosas qualidades.

No entanto, o que é mais visível nos contos de fadas é o lado sombra da heroína, que espera de forma passiva que alguém a salve. É esse foco no exterior que a impede de fazer o caminho de encontro consigo mesma, com a sua Essência e autenticidade.

O que ainda existe dentro de nós é um desejo muito secreto de ser resgatada por alguém que não nós mesmas. É o sonho de ser amada incondicionalmente pelo outro e de ser salva dos medos e dúvidas que temos em relação ao nosso valor.

Os  contos  de  fadas  ensinaram-nos  que  ser  bonitas,  sensuais  e  boazinhas  é  indispensável  se quisermos  realizar  os  nossos  sonhos;  ensinaram-nos  que  não  somos  completas  e  que precisamos da outra metade que nos venha completar.

Neste sentido, em vez de abraçarmos a nossa autenticidade alimentamos uma identidade que é aceite e aprovada pela nossa sociedade para merecer o título de princesa.

Mesmo que muitas não estejam à espera do príncipe, estão na mesma à mercê da aprovação dos outros e da confirmação do seu valor pelo exterior. Insistem em querer permanecer jovens a vida toda ou em mostrar ao mundo a sua beleza física e interior.

Mas, há algo que os contos de fadas não mostram. A heroína nasce pura, generosa e amorosa.

Parece  que  por  magia  ela  já  nasceu  perfeita  e  imaculada.  Isto  leva  a  que  fique  no  nosso inconsciente  a  ideia  de  que  os  aspetos  menos  bons  devem  ser  superados,  transcendidos, negados ou rejeitados.

Tornamo-nos  prisioneiras  da  nossa  própria  história  ao  julgarmos  que  essas  qualidades impedem-nos de alcançar a felicidade. Quando na verdade é o facto de não as abraçarmos e expressarmos que nos tornamos infelizes.

Os contos de fadas estão a influenciar a nossa vida enquanto acharmos que é mais importante agradar os outros do que a nós mesmas.

Jean  Iris  Murdoch,  escritora  e  filósofa  irlandesa  diz  mesmo  que  a  libertação  do  ser  humano acontece quando ele se libertar da fantasia.

Precisamos abrir mão  de conceitos de “metade da minha laranja”, “viver felizes para sempre” ou  de  procurar  salvação  e  aprovação  externa,  enfrentando  o  medo  do  abandono,  solidão  e rejeição.

Precisamos parar de se distrair com as expetativas impostas ou absorvidas da sociedade.

Precisamos honrar a voz da nossa Essência que chama por plenitude e totalidade.



Nenhuma  mulher  consegue  ser  generosa,  amorosa, serena  e  sábia  de  forma  constante.  Nós temos dentro de nós uma vasta gama de sentimentos e emoções, uns mais tumultuosos que outros, somos cíclicas, essa é a nossa natureza.

Enquanto  formos  influenciadas  pela  busca  da  perfeição  ou  deixarmos  que  os  outros  nos  intimem a isso o contraste dentro de nós torna-se difícil de aceitar e de abraçar.

Se acharmos que a salvação vem fora de nós, então resumimo-nos a aceitar as expetativas e definições  dos  outros.  A  raiva,  a  tristeza  e  necessidades  vão  continuar  a  ser  vistas  como impedidores da nossa perfeição.

Sabotamos  a  nossa  felicidade  ao  acharmos  que  primeiro temos  que ser  aceites  e  aprovadas pelos outros e só depois é que abraçamos o nosso valor. Mas, só seremos valorizadas depois de nos valorizarmos.

Pagamos um preço alto por se juntarmos à geração de mulheres que promovem o altruísmo e sacrifício aos outros, em troca de migalhas. Lembro-me  das mensagens que recebi para não trazer desarmonia ou ser fonte de discórdia e com isso calei a minha voz até ao ponto de já não ser capaz de usá-la.

Não  é  fácil  aceitar  que  a  alienação  de  nós  mesmas  representa  o  maior  obstáculo  à  nossa liberdade, mas o  caminho para as nossas profundezas é um caminho que vale a pena trilhar se quisermos mudar o rumo da nossa história.

Algumas mulheres ficam presas à depressão e à incapacidade de resolver a sua insatisfação, outras tornam-se amargas, ressentidas e exigentes e manipulam para não serem abandonadas ou  aceitam  menos  do  que  aquilo  que  merecem  para  não  enfrentarem  o  medo  de  ficar sozinhas.

Quando surge um pedido para despertar, em vez de honrarem esse pedido voltam ao exterior: umas casam, descasam e casam de novo, outras fazem plásticas para ficarem mais jovens ou mais perfeitas, outras mudam de emprego ou estilo de vida, outras controlam tudo e todos para  não  haver  desconforto,  mas  no  fim  de  contas  não  muda  nada.  As  frustrações  que amealham apenas servem para reforçar a crença de que não têm valor.

Desiludidas com a busca no exterior algumas mulheres voltam-se para a espiritualidade, mas continuam a reproduzir a mesma imagem de perfeição, altruísmo e a viver de acordo com as expectativas  e  qualidades  que  uma  pessoa  espiritualizada  deve  ter.  Ao  invés  de  usar  a espiritualidade para se libertar, usam a espiritualidade para alimentar a crença de que a sua salvação está separada de quem elas são neste momento.

Não  há  nada  de  errado  em  ser  generosa,  paciente  e  compreensiva,  nem  em  querer transcender  padrões  de  comportamentos  limitadores.  Mas,  não  deixa  de  ser  importante questionar  esse  desejo  e  garantir  que  ele  não  tem  por  base  a  busca  pela  perfeição  e  por corresponder às expetativas. A maioria ainda continua a querer fazer parte de algo maior e a querer parecer algo mais do que aquilo que sentem ser.

Este  ciclo  termina  quando  formos  capazes  de  abraçar  todo  o  nosso  ser  sem  vergonha  ou preconceito,  pois  a  forma  como  nos  relacionamos  connosco  representa  a  forma  como  nos relacionamos com a vida.

Como disse uma Freira budista, o caminho da libertação não acontece com uma única decisão para  romper  com  tudo  o  que  nos  limita,  mas  com  várias  decisões  sucessivas,  muita  força  e determinação para não cair nos mesmos padrões e nos mesmos hábitos.

A sabedoria interior surge quando desenvolvemos consciência e começamos a acreditar que tudo  o  que  precisamos  para  se  transformarmos  está  dentro  de  nós  no  momento  presente.

Aqui e agora é a chave e cada momento nos presenteia com uma oportunidade para escolher  fazer diferente.

 

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Clarisse Cunhaperfil

Curiosa, questionadora e irrequieta levanta-se todos os dias a pensar no que vai partilhar.

Comunicar com os outros tornou-se na porta de acesso à sua essência. Além de colaborar com O Segredo podes deixar-te inspirar pelas suas palavras no seu site (clarissecunha.com) e instagram (@cunhaclarisse).






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