A maternidade real…



A maternidade não é, nunca foi e nunca será um mar de rosas.

Nos últimos tempos houve um boom de mulheres contando na internet a realidade de suas vidas como mães. Desde canais no Youtube ao universo da blogosfera, as mães criaram coragem para mostrar aquilo que não é tão legal em sua nobre e divina missão.

A verdade é que para muitas mulheres a maternidade real pode ser um verdadeiro suplício. Existem aquelas que sofrem de alguma síndrome ou transtorno mental, os quais mesmo moderados podem ser grandes empecilhos a esta mulher, interferindo significativamente na plenitude da atividade materna.

Também existem os muitos casos da mãe solteira que, apesar dos discursos de que a mulher consegue se virar sozinha, enfrenta inúmeras dificuldades em criar um filho sem a presença do pai. Seja na parte financeira ou na parte emocional, a falta do pai impacta, sim, a vida desta criança. A boa notícia é que há sempre um substituto, seja um avô, um tio ou quaisquer outras pessoas que integrem a rede de apoio desta mulher.

Além dessas, existem as que sofrem de alguma doença limitante ou incapacitante, o que torna a gravidez algo muito desafiador e difícil. É verdade que ser mãe é um presente, mas nem todas as mulheres o pedem ou estão preparadas para ele.


As dores físicas maternidade

Quem vê aquelas carinhas rechonchuchas sendo acariciadas por mães jovens e felizes, normalmente iluminadas por uma luz incrivelmente brilhante dos comerciais de fraldas e pomadas de assaduras, não imagina o quão doloroso pode ser o percurso de uma mãe da vida real.

O aprendizado da amamentação não é tão fácil. A criança pode não pegar bem o bico do seio da mãe, este pode estar invertido, o leite pode ser tanto que faz o bebê engasgar ou pode ser tão mirrado que obrigue essa mulher a buscar os bancos de leite.

Às vezes os mamilos racham e sangram. Às vezes o leite empedra e, por mais que se faça a ordenha, a mulher pode desenvolver uma mastite, que é uma inflamação dos dutos mamários e que causam dores, inchaço, febre, dentre outros sintomas. Os especialistas dizem que uma em cada dez mulheres pode desenvolver mastite e que é mais comum após o nascimento do bebê.

Eu tive, minha avó teve e uma amiga minha também teve. Você amamenta com uma fralda na boca para não assustar o bebê com seus gritos, o que seria pior porque o traumatizaria, fazendo com que pudesse vir a recusar o peito. E você precisa amamentar mesmo que os seios estejam tão duros e doloridos que o simples toque cause dores terríveis, pois eles precisam ser esvaziados. A ordenha não é tão eficaz quanto a própria sucção do bebê.

Algumas mulheres precisam passar por cesárea, seja porque o trabalho de parto não se iniciou (como o meu), seja porque o seu médico queira receber mais pela cirurgia (como foi com minha mãe). E em alguns casos os pontos da cesárea podem infeccionar, como aconteceu comigo. Eu tive o que me informaram ser celulite na cesárea e tive que ser internada novamente sete dias após ter o bebê. Passei por nova cirurgia e meu bebê precisou de fórmula, pois ficou inviável levá-lo para mamar todos os dias. Eu ainda tive que comparecer ao hospital alguns dias depois desta segunda internação para tomar um antibiótico na veia e me lembro que na última vez demorei quatro horas para ser atendida. O hospital era público.

Perigo de pré-eclâmpsia também é um fantasma para algumas mulheres durante a gestação. E não é tão raro, tenho um caso na família. A pressão da grávida sobe, aparecem proteínas na urina e há um repentino ganho de peso. É uma condição grave. Existem muitas outras ocorrências, mas não convém enumerar todas.




As dores emocionais da maternidade

Quando o pai da criança não está presente, porque ocorreu uma separação ou porque simplesmente não quis assumir o filho, o estado emocional dessa mulher fica muito perturbado. Os discursos à sua volta – e dentro dela mesma – de que pode cuidar do seu filho sozinha são muitos e até a levam, às vezes, a abrir mão de brigar na justiça por pensão alimentícia (o desgaste é inenarrável).

Acontece que essa crença de que a mulher consegue criar seu filho sozinha não verdadeira e assola o emocional de mulheres que sequer imaginam estar sofrendo por isso.

Se não existe um pai, existe um tio, um avô, um vizinho, uma rede de apoio, seja família, sejam amigos, seja comunidade. Porém, sozinha, totalmente sozinha, uma mulher não consegue criar um filho com plenitude. Ela vai precisar sim do pessoal da creche, da família, de uma ou mais amigas, do pessoal da igreja, do centro comunitário, do centro de saúde, seja lá de onde for: no mundo real, ela vai precisar de uma rede de apoio e isso é crucial.

Às vezes, existe a depressão pós-parto, que é uma realidade para uma grande parte das mulheres. Também existe a depressão antes, durante e bem depois do parto e essa não escolhe mães, pais, adultos ou crianças, ela acomete milhões de pessoas: 1 em 5, segundo a Organização Mundial de Saúde. Isso é alarmante porque significa que, literalmente, se na sua casa moram 5 pessoas, uma tem depressão. Se na sua turma da faculdade tem 25 pessoas, 5 estão com esta síndrome. Numa maternidade então, de cada 10 mães, 2 estão deprimidas.


Real mesmo é só o amor: dizem que se você quiser entender, um pouquinho, o amor de Deus por você (se você acredita em Deus) é só se tornar uma mãe. Ou um pai, dizem alguns homens.

Apesar de toda a dor do parto, da amamentação, do corpo e da alma, nada é maior que o amor que se sente pelo filho. Quando pequenininhos, nos encantam e nos fazem superar o cansaço, a exaustão, as noites de sono ruim ou de nenhum sono. Quando maiores nos desafiam com seus próprios desafios a enfrentar. Quando bem maiores nos confrontam, nos questionam, nos afligem. Nós nos tornamos pessoas melhores quando nos tornamos mães e pais.

Quando aceitamos a atribuição, digo. Porque existem aquelas pessoas que dão à luz um filho ou fecundam um óvulo, mas não se tornam nem mães e nem pais, são apenas os progenitores de um novo ser. E não falo só dos que rejeitam os filhos e vão embora, falo também dos que rejeitam e continuam morando na mesma casa (mas deixemos esse assunto para lá).

Amor de mãe (e de pai) é um misto de dor e de delícia. Dou minha palavra que é um paradoxo: você não vê a hora da fase do 1 ou 2 anos passar para você se dedicar à sua vida profissional novamente, mas o aperto no coração quando finalmente pode fazer isso também te assombra.

Você quer ser independente, organizar suas coisas, seu cronograma, ter suas conversas de adulto, seus compromissos de adulto, sua vida de adulto. Mas, ao mesmo tempo, quando está em casa, quer fazer a comidinha, rolar no tapete com bebê e brinquedo, quer botar para dormir, quer ser mãe, e se esquece das conversas de adulto, dos compromissos de adulto, das preocupações dos adultos.

Nesse momento, no exato instante em que você nina o seu bebê ou monta seu pratinho enquanto ele tenta escalar as suas pernas, tudo o que você quer é ser uma mãe, com conversas de mãe, com compromissos de mãe, com preocupações de mãe.

Essa é a maternidade real. Nosso eterno paradoxo.






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