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A paixão é feita de detalhes

Em meio a tantos relacionamentos que estão visivelmente à beira de um naufrágio – já sem caretas, papos desenfreados, declarações embriagadas e paciência para defeitos que nunca mudarão -, eu posso afirmar que o meu namoro – e o sentimento que o mantém pulsando em ritmo de frevo – está mais sólido do que nunca.



Mas qual é o segredo? Pergunto-me, tentando identificar o combustível que dá energia a essa paixão que, hoje – já bem além da milésima vista –, é mil vezes mais entorpecente do que quando começou: tímida e sem muitas esperanças.

Por que é que, diferente das minhas paixões anteriores – que rapidamente perderam o gosto, a cor e a razão para continuarem sendo chamadas de “paixões” –, essa que agora sinto continua a brilhar a ponto de ofuscar – nem que apenas quando estamos entre lençóis ou copos de cerveja – o que a vida, infelizmente, tem de horrível e imutável?

Já elaborei algumas teorias complexas a respeito do que manteve essa paixão imune à voraz acidez do tempo e à eterna insatisfação humana, mas, felizmente, percebi que a euforia que ainda sinto quando estaciono o carro em frente ao apê dela é fruto, principalmente, de uma soma de detalhes que, apesar de simples, encantam-me de maneira atômica.


Quais detalhes? Como você é curiosa e sedenta por exemplos, cara leitora!

Mas, pensando bem, você tem todo o direito de conhecê-los…

Essa paixão é reflexo do jeito único que ela balança as pernas antes de dormir, para pegar no sono. É fruto da cara de cachorro carente que ela faz sempre que me pede um mingau de aveia, no finzinho do domingo. É consequência dos abraços extremamente apertados que ela me dá no meio da noite, depois que escapa de algum pesadelo. É resultado de como os olhos dela brilham quando eu, de repente, saco algum chocolate amargo do bolso da calça. É decorrência da habilidade que ela tem de continuar fazendo cafuné mesmo depois de pegar no sono. É produto da paz que sinto quando ela afirma que já sarou da gripe e que não sente mais dor de garganta ao engolir. É sequela de como o timbre dela muda quando ela fala sobre cachorros, gatos e sapos. É seguimento do herói que me sinto quando digo para ela ficar calma e, com uma só chinelada, transformo uma barata invasora em purê.

Essa paixão é fruto da estranha dificuldade que ela tem de pronunciar a palavra “perro” (Cachorro em espanhol). É produto da admiração que sinto pela capacidade que ela tem de guardar o nome de todos os personagens das tantas séries que vemos. É reflexo de como me sinto mal quando percebo que pisei na bola com ela. É consequência da preocupação que me invade quando constato que ela não está nem aí para o colesterol alto. É decorrência da vontade que tenho de um dia poder presenteá-la com uma passagem aérea para Berlim.


Consegue me compreender? Não? Quando encontrar alguém cujos mínimos detalhes lhe encantarão da cabeça aos pés, ao invés de causarem aflição, nojo ou outro tipo de sensação incômoda, você finalmente entenderá este texto. E saberá que a paixão é feita de detalhes, assim como a poesia que faz os olhos brilharem e coração zabumbar.

 

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Escrito por Ricardo Coiro – Via CATWALK


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