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A relativização do tempo

Quem nunca ouviu que o tempo cura tudo ou nunca passou por uma desilusão amorosa ou não tem nenhum amigo do tipo que gosta de dar conselhos. Mas quem conhece a frase, certamente já parou para pensar no real significado do conceito. Eu, particularmente, estou de total acordo, mas descobri que, entre o tempo e eu, foi necessária uma certa relativização, para que eu deixasse de ser refém, e não contasse mais as horas da cura para um coração partido ou ficasse à espera da chegada de um novo amor, ou ainda o dia em que eu acordasse e dissesse: “pronto, passou”.



Eu escolhi então trabalhar com o tempo de uma forma mais branda, mais aberta, com menos círculos vermelhos nas folhinhas do meu calendário emocional.

Eu não lembro exatamente o dia em que te conheci, mas lembro da minha primeira impressão como se fosse hoje e se duvidar posso descrever a sua roupa e a minha; posso contar em detalhes como gastamos o nosso tempo nas primeiras semanas um com o outro. Lembro que naquela noite, já fazia algum tempo que eu estava só, mas também já fazia algum tempo em que eu não me sentia realmente sozinha. No mesmo dia em que você comemoraria meses da sua nova relação, eu completaria um período de coração partido. E nesse meio tempo, teria fechado algumas portas, porque achei que o tempo ainda não tinha sido suficiente para mim.

Hoje, faz aniversário o filho de uma amiga, enquanto outra está comemorando alguns anos de casamento, e ainda ontem um casal de amigos desmanchou. Na mesma noite, minha colega conheceu alguém legal num bar na sua roda de amigos, mas que ela na verdade só vai dar importância daqui há algum tempo, e no meio disso tudo meu coração sarou, mas eu não sei dizer exatamente quando aconteceu.


Esses mesmos personagens há algum tempo atrás viviam outros momentos em suas vidas. A amiga assustadíssima com a possível gravidez, o casal vivendo sua primeira crise de casamento, os dois que desmancharam passavam na verdade a primeira noite juntos, enquanto que minha colega vivia uma relação morna e estagnada, e eu estava no auge da minha paixão.

Essas histórias e seus personagens podiam tranquilamente se misturar ou se inverter, a questão é que só conseguimos relativizar o tempo quando não nos focamos no nosso sofrimento, na nossa perda ou na nossa espera. Quando não circulamos na nossa mente uma data de início ou uma de fim e conseguimos desfocar daquilo que nos perturba ou nos falta para aquilo que recebemos, que temos.

O período em que o tempo está nos curando é assim mesmo, ele nos dá e tira coisas, nos dá paciência num dia e uma crise de choro no outro. Um pouco de resignação pela manhã e uma dose de esperança a noite. Nos mostra diferentes lados de alegrias e de tristezas. Mas definitivamente ele nos oferece as distrações, basta estar atento e disposto a desfocar da dor. Até o dia, em que você se dá conta que parou de contar os dias, e pensa: “pronto, passou”.

 


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Patrícia Born pefil

Gaúcha, morando no Rio por opção. Escreve porque já fala demais sozinha.

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.


Acredita que a maior experiência que o homem pode ter é sair pelo mundo para ver tudo

com os seus próprios olhos. Para as dores da alma: um ombro amigo e um banho de mar.

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