Comportamento

A revolta é o grande remédio contra a depressão, diz psiquiatra

Capa A revolta e o grande remedio para a depressao – diz psiquiatra

António Coimbra de Matos, um célebre médico português, falou sobre a necessidade de permitir a revolta, isso pode ajudar um indivíduo a vencer a depressão.

Um dos nomes mais prestigiados da psiquiatria lusitana, António Coimbra de Matos dedicou sua vida ao estudo daquela que hoje é chamada de “doença do século”: a depressão. Um grande pesquisador da complexidade da mente humana, Coimbra também atuava em atendimento clínico, guiando seus pacientes como um farol e catalisador, como ele mesmo descreveu.

Coimbra faleceu em 2021, infelizmente, mas alguns anos antes concedeu uma entrevista à revista Expresso, sobre sua abordagem — sempre voltada para o amor — e suas descobertas sobre a depressão ao longo de tantos anos de estudos.

Coimbra revelou que começou a se interessar por seu principal objeto de estudo por conta do interesse de seus pacientes, pois sentiam que as teorias existentes já não contemplavam o fenômeno da depressão para eles. António disse, inclusive, que muitas vezes o luto é confundido com a depressão, mas o primeiro é uma reação perante a perda real de uma pessoa, o paradigma é a morte de uma pessoa amada, enquanto a depressão seria a reação perante a perda do afeto de uma pessoa.

Sobre essa linha tênue entre esses dois momentos de impacto, o psiquiatra explicou que existem depressões normais e depressões patológicas, lutos normais e lutos patológicos. O luto normal é de memória e de substituição, por exemplo, quando um pai falece e o filho acaba preenchendo seu vazio com outras possíveis figuras paternas, como amigos mais velhos e professores. No caso do luto patológico, a pessoa fica para sempre no ponto da falta, pois sem aquele pai ela não consegue seguir. E na depressão a situação é similar: na normal, quando se perde o afeto de alguém, a pessoa fica deprimida, mas na patológica, ela também atribui a culpa do rompimento de laços a si.

Perguntado se a depressão atinge todas as classes sociais da mesma forma, o psiquiatra disse que sim, pessoas de todas as classes sociais estão suscetíveis à depressão, mas o sentimento de opressão que intensifica a sensação depressiva é maior para quem está numa posição mais vulnerável na sociedade.

António falou sobre o papel das reações no quadro depressivo, dizendo que a revolta, um sentimento tão associado a questões negativas, pode ser benéfico em certas situações e dizendo que, no geral, somos pouco revoltados.

Ele dá o exemplo de um rapaz cuja namorada termina o relacionamento. O homem pode sim ficar depressivo com essa situação, mas também existe a revolta, que muitas vezes não é vivida por ser suprimida, abafada.

Uma das principais armas e o grande remédio contra a depressão é a revolta, relatou António, afirmando inclusive que começamos a melhorar mediante a revolta. Ele cita um estudo de Durkeim, que apontava que na primeira década do século XX, nos períodos bélicos, as taxas de suicídio eram baixas, pois o sentimento de revolta era permitido.

Avaliando o povo português, seus pacientes, António declarou que eram talvez passivos demais, nem muito revoltados nem muito críticos. Mas o médico garantiu que isso também teria suas vantagens, dizendo que os portugueses tinham o próprio jeito de lidar com as situações, o que poderia ser notado até mesmo historicamente, uma vez que no passado o país conseguiu conquistar boa parte do mundo em suas colônias.

Sobre a forma correta de tratar-se contra a depressão, o psiquiatra deixou claro que em alguns casos será sim necessário o uso de medicações. Mas, se precisasse resumir de forma simples o que precisa ser feito para combater a depressão, “seria a restauração da autoestima ferida do paciente”.

Ele explicou que nisso também havia uma diferença entre o luto e a depressão, pois no primeiro, a autoestima não é atingida, mas no segundo sim, diretamente. E fazer esta recuperação é um trabalho árduo, António comentou, tanto para o profissional que tenta auxiliar o paciente quanto para quem está em sofrimento.

O paciente precisa de auxílio e disposição para ir atrás da recuperação. Depressão pode ainda não ter cura, mas há formas de viver com menos sofrimento.

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