A Síndrome do Pequeno Príncipe

Lá está o pequeno notável com suas madeixas loiras, carregando um saco de interrogações. Sua estrutura órfã e andrógina formam um arquétipo controverso à medida que “cativa” leitores dos mais variados perfis. Mas para mim a história só faz sentido quando se olha para o viajante de cachecol como a crise do gerúndio. Sim, esta é a síndrome do Pequeno Príncipe.

Ele sempre está caminhando, viajando, conhecendo, conversando, perguntando. Você não o encontrará tendo feito já algo, realizado, concluído. Há um investimento em manter um movimento inconstante ora de esquiva, ora de busca. Alguém que não conseguiu se encontrar.

O Pequeno Príncipe vive em um outro planeta, aqui a metáfora é proposital. Além de viver distante de tudo e de todos, vive só. Ele pode visitar o mundo dos “outros”, mas seu próprio mundo é inalcançável. Pouco fala de si mesmo.

Por mais que o Pequeno Príncipe busque se relacionar, as “personagens” apenas passam por ele. São encontros temporários. E, embora possam deixar marcas profundas, não há vínculos, nem reencontros. A síndrome funciona como uma grande asa, permite altos voos, mas impede o crescimento de raízes.

Na Síndrome do Pequeno Príncipe há também a fantasia idealizada encarnada na Rosa. Símbolo do prazer, amor e da própria existência – pois diferente do carneiro – a existência do Pequeno só se faz pela existência da Rosa, é ela quem pauta o Príncipe da realidade objetiva e concreta dos papéis sociais.

Então, nesse vaguear entre planetas e personagens ele protagoniza a própria solidão e o vazio que se esforça para preencher em forma de simbiose, com história dos outros. Mas nem toda doçura loira e órfã oculta a arrogância e prepotência do Pequeno que ostenta o título de nobreza. Subterfúgios fortes para esconder as fraquezas mais primitivas do ser humano, o medo e a angústia.

E na raposa, o Príncipe encontrou redenção. Só conseguiu retornar ao seu planeta – e isso indica o voltar às origens – quando descobriu em si próprio os valores de sua própria essência, afinal, o que é essencial, é invisível aos olhos.

Ele se permitiu aprender, reconheceu suas limitações e deixou-se ser cativado. Mas, talvez, se tivesse se permitido viver tudo o que disse aos outros, se realmente tivesse suportado as duas ou três larvas, certamente teria visto as borboletas.


Direitos autorais da imagem de capa: static.rogerebert



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