4min. de leitura

A vida é um lapso de memória

Hoje encontrei uma pessoa que não via há 20 anos. Uma colega de trabalho, ficava na sala ao lado. Éramos estagiárias, usávamos o mesmo uniforme, uma vida pela frente. Quando nossos olhos se cruzaram o reconhecimento foi imediato, ela me chamou de “Ju”, eu a chamei de “Mari”. Não tivemos aquele segundo perturbador de vasculhar a memória como quem procura o extintor de incêndio.


Nosso abraço foi como se não nos víssemos há apenas algumas semanas, trocamos algumas perguntas, dissemos que não havíamos mudado nada. Mas não acreditamos nisso, é claro!

Morremos todos os dias. Aquele eu de ontem é apenas um inquilino teimoso, que não paga o aluguel e não vemos a hora de mandar embora.

Enquanto dirigia buscava na memória quando a tinha visto pela última vez, se foi na festa de final de ano da empresa ou em algum shopping da cidade. Não conseguia me lembrar, não sabia nada sobre ela, como se fossemos estátuas congeladas naquele antigo escritório.

Chegando ao trabalho encontrei uma colega. Seu semblante era tristonho, ela sempre radiante. Perguntei o que houve e ela respondeu que sentia falta de algumas pessoas que não trabalhavam mais conosco.


Disse a ela que, mais cedo ou mais tarde, todos iríamos embora, inclusive eu. Ela sorriu, mas seus olhos se encheram de mar, depois pressionou os lábios guardando as palavras para não chorar.

Fui pegar um café na sala ao lado e encontrei dois professores que, se não me falha a memória, trabalham comigo há 7 ou 9 anos. O cabelo dela estava diferente, bem vermelho, ela se mudou para o outro prédio e não nos víamos mais com tanta frequência. Brinquei dizendo que “já fazia séculos”. O outro professor riu, chamou-me de “exagerada”. Dei um abraço apertado nele e disse que era porque não sabia se seria “a última vez que nos encontraríamos”. Ele tombou a cabeça para a direita, olhou-me com estranhamento e bebeu o café num gole só.

Comentei que hoje me lembrei de um aluno que morreu há dois anos, “tão jovem, uma vida pela frente”, todos diziam. Aquele aneurisma cerebral que ninguém espera. Abri meu Facebook e busquei por ele. Puxei nossa conversa e lá estava a nossa última troca de gentilezas. Era sobre uma pauta, uma mensagem profissional. Ele já era formado, trabalhava na TV, mas continuava me chamando de “senhora professora”. Mesmo que eu escrevesse um “boa noite” naquele momento, ele não me responderia mais. Nem se eu insistisse com infinitas mensagens, até o último dia da minha vida, ele não me responderia mais. Já era um inquilino da memória, prisioneiro eterno do castelo das pessoas que não voltam mais. Ele já foi, passou, passageiro que desceu do trem em que ainda viajo.

O destino é certo, pensei, mas descobri que nunca sabemos em que estação o passageiro ao lado irá saltar. Então, entendi que precisamos aproveitar mais cada instante, olhar nos olhos, dividir um café sem a pressa do relógio.

E se não temos tempo para “essas tolices” é porque o nosso trem anda rápido demais, não curtimos a paisagem, muito menos percebemos quem atravessa os corredores estreitos da nossa breve existência.



Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: gladkov / 123RF Imagens





Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.