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A vida nas casas compartilhadas de SP: moradores pagam R$ 1,2 mil de aluguel em quartos de 9 m²

A vida nas casas compartilhadas de SP
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Joel Orellana, psicanalista de 51 anos, vive em Pinheiros, um dos bairros nobres de São Paulo. O preço do metro quadrado dos imóveis nesse canto da Zona Oeste beira os R$ 12 mil.

O apartamento em que ele mora tem cinco quartos e dois banheiros. Um levantamento feito pela Urbit estima que, nessa região, o valor de venda para empreendimentos como esse é de R$ 2,3 milhões, a quinta maior média da cidade.

Mas Orellana não é o proprietário do apartamento milionário. O chileno, que chegou a São Paulo há 24 anos, compartilha o espaço com outras cinco pessoas. O valor do aluguel? R$ 1,2 mil por um quarto de 9m², que é seu único espaço privado no imóvel.

Se antes essas moradias eram conhecidas como “repúblicas” e abrigavam apenas universitários de outras cidades, hoje também são conhecidas como “colivings” e acolhem pessoas com mais de 30 anos, separados e até executivos que querem morar na porta do metrô.

Os antigos cortiços e pensões seguem firmes abrigando trabalhadores informais, a maioria no Centro.

“Na hora que precisa diminuir o custo de transporte, você procura localizações mais centrais, mais próximas do trabalho e do lazer. Essas terras começam a ficar cada vez mais disputadas, um dos fatores do aumento do preço do aluguel”, explicou Isadora Guerreiro, pesquisadora do LabCidade e docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).

“Não é normal [pagar R$ 1,2 mil de aluguel por um quarto], de jeito nenhum. Isso mostra um descolamento dos preços imobiliários do salário das pessoas de todas as classes sociais”, afirmou Guerreiro.

O dormitório de Joel comporta uma cama, duas mesinhas de cabeceira, duas cadeiras e um pequeno guarda-roupas, que é suficiente para acomodar sua história de vida nos últimos quatro anos.

Antes disso, ele vivia com a esposa e os dois filhos — de 14 e 17 anos — em uma casa na Zona Norte da capital, mas o casamento chegou ao fim e ele teve a primeira experiência com casas compartilhadas.

Foi em 2017, no quarto de um amigo em uma escola de psicanálise de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Depois de um ano, optou pelo centro expandido de São Paulo.

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Direitos autorais: Arquivo pessoal.

“Tem quarto de R$ 1,9 mil na Vila Olímpia, estão pedindo R$ 2,4 mil, estão loucos. Já acho R$ 1,2 mil completamente fora da realidade”, apontou Joel.

“Eu ia sair daqui, ir para um apartamento pequeno ali no Centro, uma kitnet, mas eu optei pela região. Embora seja caro, aqui atende em outros aspectos”, afirmou.

Com o valor que paga pelo quarto em Pinheiros, Joel poderia, por exemplo, ter escolhido um espaço privativo em Santana, bairro em que fica seu consultório, mas a segurança e a mobilidade são fatores que o seduzem.

“Aqui tem de tudo: culinária, rua cheia de bares, e tudo a dois quarteirões da minha casa. Na Zona Norte, se eu colocar mais uma graninha, [consigo um espaço individual], mas não gosto do ambiente, acho perigoso”, explicou.

Apesar de algumas facilidades proporcionadas pela boa localização, Orellana diz que é “esquisito” morar com outras pessoas que não sejam de sua família.

“Vira e mexe, acontecem algumas coisas mais estranhas, alguém pegar alguma coisa sua, mas eu fui fazendo meu espaço. Negociar é a chave”, ponderou. “São dois banheiros para seis pessoas”.

“É uma cidade caótica. Os preços são totalmente fora da realidade. Ainda mais em um contexto de escassez. Há pouco trabalho, pouco dinheiro, os preços de serviços vão aumentando e o aluguel acompanha, né”, disse ele.

Assim como Joel, a vendedora Patrícia Gusmão também paga R$ 1,2 mil pelo aluguel de um espaço em Pinheiros. “O meu quarto é, na verdade, uma divisão da sala separada por um drywall”, explicou.

“É bem tortuoso morar em uma casa compartilhada. Família já é loucura, imagina no Big Brother, com gente que você não conhece”, brincou ela.

Morando no endereço há cinco meses, Gusmão disse que não foi uma opção. Durante três anos, compartilhou um apartamento com uma amiga e precisou entregar o imóvel em razão da pandemia. “Mas já estou em vista de sair para um outro lugar”.

“Estou vivendo uma situação difícil neste momento. Há pessoas complicadas, uma senhora é viciada em bebidas alcoólicas, toda noite chega bêbada, já causou algumas vezes. Não existe um controle de frequentador. Tem um risco quando você deixa as outras pessoas trazerem quem quiser para dormir”, pontuou.

A única vantagem é a região, segundo Patrícia. “Eu acho que é muito para um quarto, mas tem a localização. Eu posso morar numa área um pouco mais períférica e sozinha, por um preço mais em conta, mas, de repente, tenho um preço maior com transporte”.

Mercado de aluguel de quartos nas redes sociais

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Direitos autorais: Reprodução.

No Facebook, há dezenas de grupos compostos por milhares de pessoas que oferecem espaços e que estão em busca de um cantinho para chamar de seu.

A diversidade nos anúncios é grande: há quartos amplos em bairros nobres, quartos pequenos em bairros afastados do centro expandido, cômodos compartilhados e individuais. O preço varia de acordo com as características.

Um quarto compartilhado entre seis pessoas na Zona Leste de São Paulo, por exemplo, pode custar R$ 450 (veja na foto abaixo).

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Direitos autorais: Reprodução.

 

Também há espaços individuais pela mesma faixa de preço, mas com menor metragem, sem janela ou guarda-roupas. Na imagem abaixo, um quarto individual no bairro da Liberdade, na região central da capital, custa R$ 500 por mês.

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Direitos autorais: Reprodução.

Para quem quiser – e puder – pagar um pouco mais, há opções de quartos maiores e individuais por R$ 1.850, por exemplo, em regiões próximas à Avenida Paulista.

Na maioria dos lugares, os valores dos aluguéis incluem também custos como energia elétrica, água e internet.

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Direitos autorais: Reprodução.

O que explica esse fenômeno?

“Quando tem um excesso de aluguel crescendo dessa maneira, significa que o mercado está bombando, que não tem uma política de terras, que estão sendo extremamente disputadas pelo mercado”, explicou Isadora Guerreiro.

Durante a pandemia, cerca de 47 mil novos imóveis foram vendidos se somados os primeiros semestres de 2020 e de 2021, de acordo com um levantamento.

No entanto, a alta do aluguel tem origem prévia à pandemia, disse Guerreiro. “O ônus excessivo de aluguel passou a ser o principal fator do déficit habitacional a partir de 2015, principalmente nas regiões metropolitanas. Em São Paulo, cerca de 70% do déficit é em ônus excessivo”.

Os dados são de um relatório da Fundação João Pinheiro e mostram que, na Grande São Paulo, cerca de 411 mil famílias sofrem com preços exagerados na hora da locação.

Além do ônus excessivo, o déficit também engloba outras situações, como a precariedade do imóvel e o adensamento excessivo de moradores – quando muitas pessoas dividem o mesmo cômodo para dormir. Essas condições afetam cerca de 179 mil outras moradias.

“A escolha da classe média de morar nesses lugares [quartos em casas compartilhadas] tem muito mais a ver com questões geracionais, com flexibilidade de emprego. Preferem morar para não ter carro, não ficar no trânsito”, apontou ela.

Se olhar para as classes que mais precisam, é uma escolha que é uma não escolha, na verdade. É a única possibilidade de vida que ela tem. Quando falamos em classe média, são tendências de escolhas de vida. É bem diferente”, destacou a docente.

Segundo ela, são muitas as razões que levam a esse fenômeno, mas três pontos ajudam a entender os valores tão elevados de aluguel na capital:

A disputa de terras: o mercado imobiliário aquecido faz com que os terrenos fiquem escassos e, consequentemente, os empreendimentos mais caros. Segundo Isadora, isso não seria problema se o poder público tivesse programas habitacionais para a população de baixa renda.

O setor financeiro: investidores se interessam pelo setor imobiliário porque o mercado financeiro não está rendendo como esperado, fato que contribui para a alta. “O aluguel é entendido como um investimento”.

Alta do aluguel informal: há um processo de verticalização em favelas. “Sem o emprego formal de antigamente, as pessoas não têm aposentadoria. Quem não tem carteira assinada, constrói um quartinho em cima da laje para alugar”, contou ela.

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Direitos autorais: Andre Penner/AP

“Muitas pessoas moram em favelas extremamente periféricas, mas alugam quartos no Centro da cidade de São Paulo, porque vale mais a pena o custo do quarto para ela passar a semana e, no final de semana, voltar para sua casa. É quase como se fosse uma cidade dormitório. Ficam em cortiços, em ocupações ou em quartos”, disse Guerreiro.

De acordo com a pesquisadora, os atuais cortiços permanecem os mesmos cortiços do século 19 em São Paulo. “É uma vergonha, porque não temos um programa consolidado de intervenção em cortiços”.

“A gente precisa adensar mais os centros, mas sem que esse adensamento seja só para as classes mais altas. Aí, entram as políticas públicas, a reserva de terras públicas para quem mais precisa e financiamento para as classes mais baixas poderem ter acesso a moradias dignas sem precisar gastar isso em transporte”.

“Na questão da exploração, não é só financeira, é social. Envolve o aluguel informal e, portanto, uma discricionariedade enorme, sem contrato, podendo ser posto na rua a qualquer momento, não pode criança, animais. Não pode e não pode. É uma condição extremamente precária, completamente fora de qualquer tipo de regulamentação”, completou Guerreiro.

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