Abandono na infância: a dor da rejeição

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Abandono na infância

Abandono na infância

Não é segredo que a experiência de rejeição causa grande sofrimento, no entanto algumas pessoas sofrem mais do que outras com isto, e vivem tentando driblar o risco de serem rejeitadas.

A rejeição é um acontecimento normalmente doído porque, durante a formação do Eu, foi associada ao risco de falecimento. Os bebês sentem ser crucial para sua sobrevivência o cuidado dos pais. Caso estes se desliguem, seja por amar mais a outro filho ou algum motivo superveniente, a morte rondará seus berços. Nesta fase da vida, as fantasias e dilemas são terríveis. Pode-se dizer que o desenvolvimento do Eu ocorre em meio a uma grande tragédia interior e que o combate a rejeição ocupa um papel de destaque nesta tragédia. Deste combate inicial, alguns saem machucados, outros menos, e alguns outros completamente sequelados.



A tenebrosa tragédia infantil pela qual passa o ser humano, explica porque nossa espécie tende a não lidar muito bem com a rejeição. Contudo, o que explica o fato de que alguns tendem a lidar bem pior do que outros?

O que faz com que algumas pessoas sejam totalmente assoladas pelo horror à rejeição e transformem suas vidas numa permanente luta contra ela? São três as causas mestras!

Abandono na Infância

A psicanálise nos ensinou que as fantasias infantis surgem antes das brincadeiras, que são produções emocionais intensas e que orbitam ao redor de temas dramáticos como o amor e o abandono. Todavia, algumas crianças passam pela experiência não fantasiosa, a experiência real do abandono, em algum nível. Este abandono pode ser total (quando são largadas ou entregues para adoção) ou parcial (quando são sistematicamente negligenciadas ou deixadas sob os cuidados de outros – como tios ou avós, ainda que os pais permaneçam por perto).

Quando algo assim acontece, o ser abandonado tem a inclinação de resolver seu conflito infantil com um dentre os dois jeitos em sequência:

a) identificando-se com quem o abandonou e se tornando alguém que vai abandonar muitos ao longo da vida


b) abrigando-se no masoquismo e carregando consigo a fantasia perpétua de abandono. Os que resolveram conforme o modo b são os que sofrem com a rejeição (em sua modalidade doída).

Entender ter sido abandonado ou preterido. Inúmeras evidências clínicas informam que tanto faz a pessoa ter passado por uma experiência dolorosa ou ter “fantasiado” passar. A dor, seja vivida ou imaginada, produz consequências igualmente. É óbvio que as consequências variam em grau, tem a ver com a suscetibilidade dos envolvidos, e nem sempre são consequências dolorosas (sobre isto falarei alhures). Aquela pessoa que entendeu não ter recebido o amor que deveria lhe ser dado ou, pior ainda, que entendeu ter sido alvo de um grande desamor, terá como repercussão necessária carregar a agonia de pelejar contra a rejeição indefinidamente.

Lembro de uma amiga que acreditava ter sido negligenciada pela mãe na infância. A mãe nunca foi dada a ternura, no entanto, do seu jeito, expressava e entregava seu amor. Só que ela nunca entendeu o jeito de sua mãe amar, chegando a enxergar neste jeito desamor.


Por conta disto, durante muito tempo, reviveu em suas relações amorosas o medo de ser desamada, assim como entendeu ter sido por sua própria mãe.

Ser criado e influenciado por um “rejeitado”. Existe uma coisa chamada Aliança Neurótica. Os termos desta aliança variam. Pode ocorrer numa relação entre oprimido e opressor, pessoas que se atacam mutuamente, pessoas que se fecham e se alienam em conjunto, e assim sucessivamente. Uma das formas de se realizar uma aliança neurótica com alguém é conservando sua neurose. Vou explicar melhor. Aqueles que cuidam de uma criança (via de regra, os pais) repassam para ela o seu sistema de pensamento, inclusive seus próprios medos e conflitos. Uma pessoa que carrega em si o medo da rejeição imprime em seu filho a ideia de um mundo onde todos poderão rejeitá-lo a qualquer instante. Aceitar esta cosmovisão perturbadora é como uma espécie de declaração neurótica de amor.

No íntimo, os filhos que reproduzem os medos dos pais se sentem ligados a eles (ainda que esta ligação se dê por um viés neurótico).

Recordo o caso de uma paciente que não sofreu muito quando sua mãe morreu. Entretanto, anos mais tarde ela começou a participar de um grupo de alta performance e, de tanto mergulhar neste assunto, e por fazer tão boas amizades neste grupo, acabou diminuindo seu sentimento permanente de rejeição. Neste ponto, algo inusitado aconteceu com ela: começou a experimentar a tristeza que não sentiu quando perdeu a mãe. O sentimento de rejeição a mantinha viva dentro dela. O desaparecimento deste era, em seu psiquismo, o equivalente a morte materna.

Ok. Aqui falei sobre a etiologia (as causas). Mas como combater? Isto é assunto para outro texto. Compreender bem as causas e se situar em alguma delas é um ponto de partida inexorável.


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* Matéria atualizada em 05/10/2018 às 11:15






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