Alguns temas como abraçar a sombra, nos últimos anos foram banalizados. Todo mundo fala em abraçar a sombra, em trabalhar o perdão, em quebrar o ego, em cuidar da criança interior, como se tudo isso fosse muito fácil.



No âmbito das terapias alternativas, então, as receitas de sucesso proliferam por todos os lados, algumas oferecendo possibilidades reais e dicas importantes, outras, porém, caem no óbvio, na repetição de pensamentos e ideias aprendidas em cursos, mas sem a vivência prática do conteúdo, o que não ajuda em nada; aliás, dificulta porque por conta desse tipo de “entendimento”, as pessoas vão criando um cascão racional, explicando tudo, tendo respostas bem fundamentadas, mas pouco profundas.

Aliás, acho que o mundo está sofrendo por causa da pouca profundidade das pessoas que querem rapidez em tudo. O amor tem que funcionar rapidamente e, para que isso dê certo, etapas importantes do relacionamento são tiradas de lado, como se não fossem importantes. As crianças na escola vão seguindo diariamente com um milhão de aulas e cursos, muitas vezes na intenção de preencher o tempo, já que seus pais estão trabalhando por períodos cada vez mais longos, ganhando mais, produzindo, comprando, gastando.

Acho que muitos de vocês, que estão lendo este artigo, concordam comigo: a loucura deste mundo está cada vez maior e muito dessa pressa e superficialidade que nos afeta em todos os sentidos se deve justamente pela falta de compromisso com o sentido maior da vida. Quer dizer, poucos olham para a essência das coisas; as pessoas, ao contrário de buscar aprofundamento, querem apenas preencher o vazio cada vez maior.


E não será essa a nossa sombra?

Vivemos para fora, buscando no mundo, nas relações com as pessoas, ocupar aquilo que está na escuridão dentro de nós. E quando conseguimos dar um passo à frente, pensando em alguma coisa que resolva e nos ajude a melhorar, encontrar mais paz, ou felicidade, não temos tempo. Ou será que é medo?

Aprisionamento também é sombra, e não é teoria. Quantas vezes a gente quer andar, começar aquela aula de ginástica, ou aquele regime, ou mesmo fazer a prática diária de meditação que sabemos fará bem, e não conseguimos porque não temos tempo ou não conseguimos nos organizar. Isso não é uma prisão?
Sim, a prisão da falta de tempo, de energia, de vontade que está sendo drenada para as mil ocupações que criamos, ou aceitamos para nossa vida.


A internet, então, é outra sombra, quando mal usada, pois basta a gente começar a olhar alguma coisa, que uma notícia se segue à outra e quando vemos perdemos um tempo enorme com nada… E não há algo pior do que perder tempo, vivendo numa sociedade em que, todos os dias, temos milhões de compromissos, todos importantes.

Claro que existem sombras reais, casos de terapia, como medo, neuroses, falta da capacidade de compreensão que gera falta de amor. Muitas pessoas estão doentes, vendo apenas a doença e incapacidade alheia. Aliás, isso também é um ataque das sombras. Quando perdemos a noção da realidade humana, que é ter imperfeições, erros e, ainda assim, amar, perdemos a luz e mergulhamos nas sombras. Então, cabe mais uma vez a pergunta: o que significa realmente abraçar a sombra?

Chorar na terapia descobrindo que “nunca” fomos amados pela nossa mãe, e continuamos nossa vida sem saber amar ninguém, até nossa idade atual? Ou será descobrir, num verdadeiro insight que vivemos abraçando a sombra não mergulhando em nós mesmos, desconhecendo nossa luz, nossa capacidade de entender o outro e cobrar menos daqueles que estão à nossa volta, e até de perdoar nossa mãe?.
O que será a bandida sombra?


Infelizmente, amigo leitor, não tenho respostas conclusivas, até porque a sombra se move, toma outras formas, assume na sua escuridão a condição de desfazer até de um raciocínio lúcido.
O que sei, é que claro e escuro fazem parte deste mundo, e que todos nós temos sombra, mas que se cada um investir em amar mais, em se abrir para tentar compreender o mundo do outro, perdoar as falhas visíveis e invisíveis que tanto nos perturbam, a sombra vai perdendo a capacidade de assustar e passa a ser apenas mais um complemento importante na caminhada. Porque não há pessoa nesse mundo que suporte apenas a luz. E se não há sombra para fazer pensar e buscar entender o porquê dos fatos e impulsionar mudanças, o que seria de nós?

Se usarmos tudo aquilo que nos causa desconforto e incompreensão a favor do crescimento, amadurecendo nossas questões, tenho certeza que esse tenebroso abraço das nossas incapacidades, medos e neuroses, se transformará numa grande oportunidade de amar a nós mesmos, e ao mundo.

Muita coragem luminosa e respeito ao aprendizado da sombra para você!


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