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ADeus, amigo…

ADEUS MEU AMIGO

Tomada por uma sensação de impotência, desamparo e tristeza infinita, ao ver o lugarzinho vazio na calçada, mais vazio que nunca, onde deitadinho ao sol ficava – talvez sua única alegria – um cão aleijado da patinha direita de trás, que andava com dificuldade e já era idoso (ou parecia, talvez por tudo que passou) não tinha dono e morava aqui na rua. Minha mãe o batizou de “Amigo”.



Não sabemos, mas imaginamos silenciosamente que ele se foi, porque há semanas que não o vemos mais. Andava com dificuldade e nós sempre dávamos comida e água a ele, que tinha um olhar tão triste que podíamos ver através dele todos os maus-tratos, a solidão e o cansaço de uma vidinha quase invisível de tão ignorado por todos que foi.

Não cheguei a tirar nenhuma foto dele sequer. Talvez por não imaginar que ele fosse embora assim tão rápido, ou talvez também, por, inconscientemente, não querer trazer à tona, registrar aquele sofrimento.

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Assim foi melhor. Não lhe tirar o restinho de dignidade. No íntimo, acho que se pudesse tê-lo perguntado e ele respondido, teria dito que não, que não queria nenhuma foto sua.

O sentimento que experimentamos agora, eu e minha mãe, não é novo; passamos por isso inúmeras vezes e cada uma delas, as quais não pudemos levar adiante pela impossibilidade de fazer mais, de ajudar mais, de acolher, nos causava essa mesma e imensa sensação de agora: a dor da impotência de não poder agir diante de tanta injustiça.

Seu lugarzinho está lá e mal posso chegar à janela e ver vazio. O aviso que colei no muro do outro lado da rua, pedindo encarecidamente aos passantes que não jogassem fora – como era freqüente – a vasilha d?água que colocávamos todos os dias para ao menos aplacar sua sede, ainda está lá, assim como a vasilha. Nada restou dele, apenas a lembrança de um ser lindo com o olhar mais doce, puro e triste que eu já tenha visto num cão. Sua vidinha passou despercebida por todos; quando não, por ser enxotado, repelido e ignorado. Provavelmente o único carinho que recebeu na vida foi o afago que nós fazíamos nele enquanto ele comia no tão pouco tempo em que tivemos o prazer de estar perto dele.

Não posso – e sei disso – passar por outra experiência como essa. Estou completamente arrasada e quero que vocês saibam apenas que existiu um cão de porte grande, caramelo, de cara boa e olhar muito meigo embora profundamente triste, que imagino ter passado por todos os infortúnios que um cão de rua nesse país costuma passar, e que seu nome era Amigo.


Que esteja ele agora num belo lugar cheio de sol, com muita grama para correr livremente, muita água para saciar sua sede e comida para se fartar, e que tantos e todos os sofrimentos por que passou em sua breve estada nesse mundo, tenham, enfim, cessado. Se essa certeza ao menos eu pudesse ter, a de que existe esse lugar tão merecido para os animais sofridos, negligenciados e abusados pelo homem, acharia a vida menos cruel e sem sentido como tenho constatado na minha também breve estada por aqui.

Viver grudado é para os siameses. Casais felizes se respeitam como indivíduos!

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