ÁGUA QUENTE…



Eu acordo e escuto os barulhos a minha volta.

Me levanto e me ajeito.
Deixo a cama como está, porque é assim que eu quero.
Tomo café e olho pela janela.
Vejo o dia nublado e a roupa que não secou.
Lavo o resto da louça de ontem que me permiti deixar na pia.

Foi-se o tempo de me vestir de preto e declarar luto eterno.
Dos dramalhões e cenas no chuveiro, dignas de hollywood.
Dos olhos inchados, criminosamente escondidos atrás de óculos escuros.
De se lamentar, se punir e se cobrar.
O olhar, antes pedinte, agora é tranquilo. Beirando o blasé.
O silêncio, antes torturante, agora é paz.
Frieza? De maneira nenhuma.

Quando eu era criança via minha vó lavando louça com água fervente e me espantava como ela não se queimava com aquilo. “A pele se acostuma”, ela dizia.
Assim é com o coração.
Corações escaldados sabem do que eu estou falando e não se abalam mais por qualquer água morna, nem por alguns arranhões. A pele febril e machucada já não dóis mais tanto. E se dói, é totalmente suportável.



AGUA QUENTE - FOTO DE  DENTRO
Foi-se o tempo de permanecer despedaçada, espalhada e bagunçada.
Estou ali, de pé, cabeça no lugar. Minha respiração é normal. Pressão 10 por 6, batimentos 69 por minuto.
Não choro mais por qualquer falência. Mas me permito deixar escapar uma lágrima ou outra se elas quiserem vir. Não as chamo, nem as provoco. Deixo que venham, se quiserem. Mas não admito isso nos dias de sol.
E se as lágrimas vierem, essas já são diferentes. São práticas, diretas, objetivas. A tristeza já tem prazo. E ele é bem curto.
Se choro, choro por mim e por mais ninguém. Egoísta? Não.
Apenas choro por ter aceitado menos do que mereço e mais do que minha tolerância suporta. Choro por ter abusado do altruísmo com o outro e esquecido de mim. Choro por ter sido perdulária de minha própria vida. E choro para me despedir de tudo o que eu não quero mais. Como se naquelas gotículas estivessem condensadas toda a melancolia, tristeza, raiva e expectativas frustradas. E o objetivo é simples e puramente expulsar tudo isso do meu ser. Como naturalmente o corpo quer fazer com qualquer vírus.

E é assim.
Maturidade é isso.
É transformar a indignação em aprendizado.
A frustração em melhores escolhas.
A raiva em amor próprio.
O orgulho em dignidade.
A melancolia em paz.
Demora um pouco pra acontecer, mas vem.
E vem com as decepções das pequenas apostas ou das grandes bancarrotas. Com os tropeços, entregas e saltos nos precipícios. Vem com o cansaço de chorar encostada na parede.
Vem com a água fervente.






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