O SegredoRelacionamentos

Ainda é você

ainda

E se eu disser que ainda são seus os meus domingos, os meus brindes, as minhas lingeries novas? Que ainda é sua a minha cama, a minha casa, os meus beijos matinais? E se eu te disser que você – só você – ainda pode entrar e pegar qualquer livro na estante sem que eu me aborreça?



E se eu te disser que nenhuma noitada vale um filme do teu lado? E que eu me deixo amar, me faço templo do prazer e, embora não me arrependa, eu gostaria do seu cheiro depois?

Quando a vida arranca alguém da gente – como me arrancou de você e vice-versa – anuncia-se um luto desesperado, agressivo, quase desumano. Ele vai passando como se nos aplicassem uma injeção calmante, e dando espaço a uma dor parcelada, que se arrasta e arrasta a gente junto.

E agora o que eu tenho aqui é uma saudade calma, melancólica, vagarosa, que vai me rasgando aos pouquinhos como que por prazer. Não tem choro desesperado – porque, afinal, não é isso a merda da maturidade? – só tem um vazio estranho do que não foi, do que a gente pensou que fosse, do que a gente merecia que fosse. Uma saudade lenta, quase uma cócega, que me afaga quase todas as vezes em que eu entro nesse quarto.


Isso não é sobre finais, ou sobre começos, ou sobre amores mal-resolvidos ou sobre a porra da vida adulta.  Isso é sobre saudade. Essa coisa fria e cruel que nos acalanta e nos apunhala quase ao mesmo tempo. É sobre querer a tua voz ecoando macia na casa da minha mãe porque você precisa da nossa cama, sobre o seu jeito apaixonante de fazer qualquer coisa nessa vida.

Isso é sobre o dia em que viajamos com sono depois de uma noitada e eu passei o caminho inteiro de contando da minha infância estranha só pra você não dormir ao volante. É sobre as canções que a gente aprendeu juntos, sobre as piadas que a gente se conta com os olhos, as noites em que a gente se abraçava e se curava de qualquer mal que tivesse alcançado nosso dia.

É sobre os seus olhos miúdos, é sobre o vinho que a gente não terminou, os filmes que a gente não viu, as festas que a gente faltou. Isso é sobre você, como tantas vezes foi. É que por mais que eu já tenha aberto a porta pra tantos outros, ainda dói. Ainda é você.

 


____

Fonte: Escrito por Nathalí Macedo via Entenda os Homens

Aquele abraço que nos salva do fim do mundo

Artigo Anterior

Mais do que amor

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.