AINDA LOUCO, DEPOIS DE TODOS ESSES ANOS…

 “Still Crazy After all These Years” (Ainda Louco depois de todos esses anos)

É o título de uma belíssima música de Paul Simon, cuja letra tem muita semelhança com que aconteceu comigo dia desses.

Há muitos e muitos anos que venho me perguntando sobre uma constante na minha vida: os insucessos dos meus relacionamentos. Tantas questões me intrigavam na mesma proporção que para elas, não tinha respostas. Ou melhor, conseguia realizar meias verdades, e que no fundo, eu bem sabia que continuava no escuro porque nada do que eu concluía me parecia uma resposta verdadeira. Eu estava já pensando em alguma “maldição” jogada sobre mim. Tive sorte.

Foram alguns dos homens mais interessantes que conheci desde meu último casamento. Homens que poderiam facilmente deixar mulheres muito exigentes, completamente apaixonadas. Mas a sorte às vezes não quer dizer muita coisa, pois foram todos eles “amados” por mim de forma incompleta. Na verdade, eu nunca os amei, embora esforços para isso não me tenham faltado. Mas quem disse que se consegue forçar sentimentos?

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A sensação era invariavelmente a mesma. Um pequeno encantamento no começo, mas já com uma certeza interior de que aquilo em nada daria. Alguns se arrastaram mais que outros, porém, quando sentia que aquele estava especialmente empenhado em levar adiante, eu sempre arrumava uma maneira de terminar, de sabotar a relação. E de um modo definitivo, fechando todas as portas atrás de mim. Sou PhD nisso.

Comecei a cogitar a existência de algo em mim que não me permitia o direito à felicidade, como uma autoflagelação, ou uma espécie de masoquismo. Era profundamente ambíguo o sentimento que me tomava nessas questões. Eu achando – sem nenhuma convicção – que gostava, que amava, porém, o real, o que eu sentia de verdade era um tremendo desconforto com aquelas pessoas. E deixava isso vazar mesmo sem querer (querendo) para colocar no outro a responsabilidade de assumir que havia esfriado, perdido o encanto. E quando não conseguia, tomava as rédeas e rompia sem muitos pudores. E foi assim. Uma relação após outra, num mesmo ritmo, num mesmo tom, num mesmo padrão que já me cansava.

Obviamente eu tinha plena consciência de que eu mesma provocava os insucessos amorosos que se sucediam. Só não entendia porque agia assim mesmo sem ser premeditado. No fundo, queria que desse certo embora soubesse também que em determinada altura, eu daria motivo necessário para me desvencilhar daquela pessoa.

Finalmente, há menos de um mês atrás, descobri a razão de todo o meu “fracasso” no âmbito sentimental: Eu nunca deixei de amar – o único e verdadeiro amor da minha vida – meu ex-marido. Essa constatação ficou evidente para mim segundos depois que me despedi de um encontro casual no centro da cidade, onde eu, inadvertidamente e por puro instinto, o chamei e o tratei como se não estivéssemos numa batalha judicial. Quando o vi no meio da multidão de passantes, nada dos episódios recentes – ou nem tanto, já que a justiça se arrasta por anos – foi suficiente para que me viesse à tona a real situação pela qual estamos passando. Esqueci completamente da figura de meu “inimigo” judicial e apenas fui tomada por uma grande alegria em vê-lo. Meu coração começou a bater muito rápido e quando percebi, já o havia chamado. Acredito que ele deve ter achado um pouco surreal a minha atitude dada as circunstâncias em que nos encontramos atualmente. Inclusive notei seu desconforto e perplexidade. Fui completamente amistosa, porque como disse, vi ali e lembrei ali do meu amor, daquele rosto e de tudo de bom que ele me fazia lembrar. Não lembrei tudo, claro, mas lembrei da coisa maior, do amor que tínhamos vivido e do amor – que estarrecida – percebi nítido como aquele fim de tarde de sol, ainda existir dentro de mim e que é, ainda, muito, muito forte.

Conversamos por alguns minutos, desatei a falar num estado entre a euforia e o nervosismo. Ele me perguntou algumas coisas e notei que aquele encontro no meio da calçada, quase um esbarrão, mexeu também com ele.

Voltei para casa pensando em tudo isso e simples como 2+2 é igual a quatro, conclui o que estava no meu subconsciente o tempo todo e que apenas não admitia que pudesse ser. Como eu poderia ter um relacionamento, por mais legal que fosse a pessoa, se eu não sabia que ainda sentia um amor imenso por alguém, mas que estava latente? E numa associação de ideias, lembrei que todos os sonhos que tive com ele durante esses muitos anos em que não nos vimos, foram os mais deliciosos e marcantes. Como eu pude deixar esse sinal passar despercebido?

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Bem, de certa forma o conflito que tanto me perturbava, chegou ao fim. Agora sei claramente por que razão deixei esses homens tão interessantes passarem por mim sem me apegar realmente a nenhum.

Lamento profundamente o fato de ainda amar alguém que não poderei mais ter ao meu lado. Mas quem disse que a vida é justa? Tentamos seguir em frente.

Não é assim?



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