5min. de leitura

Além do horizonte há um lago onde tudo acontece, mesmo que não se possa tocar

“Nunca houve dois corações mais abertos, nem gostos mais semelhantes, ou sentimentos mais em sintonia.” Jane Austen


Sempre me emociono ao ouvir “Over the rainbow”(Além do arco-íris), composta por Harold Arlen e Yip Harburg no final da década de 30, pela força de expressão em suas infantes palavras (recentemente na voz de Israel Kamakawiwo&aposcole). Mesmo depois de tanto tempo, consegue ilustrar sentimentos bastante atuais e verdadeiros em diversos contextos. Lançando esperanças sinceras de trás das nuvens dos contos de fadas, derretendo problemas como balas de limão.

Reassisti, em uma tarde dessas “A casa do lago” e confesso que por algumas vezes voltei às cenas mais intrigantes, para entender algumas entrelinhas, mensagens que acabam colidindo com minhas experiências, conhecimento e expectativas. Kate Forster (Sandra Bullock) é uma médica, que morava em uma casa à beira de um lago e seu suposto par romântico é Alex Wyler (Keanu Reeves), um arquiteto que mora na mesma casa, porém em outro tempo, dois anos depois.

O filme ocorre então, com uma diferença de “tempo”, ou seja, os personagens se comunicam através de cartas e se aproximam emocionalmente, porém nunca se encontram pois vivem em anos diferentes.

Ambos são solitários em seus “mundos”, e seguem suas vidas, como pessoas comuns, com dedicação ao trabalho, tentativas de bons relacionamentos e uma busca praticamente incompreensível dentro deles por algo que, embora sutilmente, traria certa completude.


O filme cita um trecho do livro: “Persuasão” de Jane Austen: “Nunca houve dois corações mais abertos, nem gostos mais semelhantes, ou sentimentos mais em sintonia”, explicando como intervalos entre estações do ano, nascer e pôr do sol podem carregar inexplicável concomitância em silêncio. Justificando o cenário de uma casa isolada, num local sem movimento e com nenhum acesso ao lago, apenas uma vista de tudo ao seu redor. Uma visão que não permite o encontro, uma observação de algo que não chega, por não ser alcançado o dado momento.

O filme faz uma personificação desse encontro, mas a busca por algo distante que coexiste, pode ser: o reforço de uma fé esquecida, o resgate de dons ou talentos suprimidos, o abraço a uma causa adormecida.

Pois além do horizonte há um lago, onde tudo acontece, mesmo que não se possa tocar.

O rastreio por algo que já faz parte, mas que está espacialmente longe, justifica as fases da vida: alvorada e entardecer, justifica também o amor, sonhos e a auto-observação. Assim como a provisão que uma canção de décadas atrás carrega em suas estrofes, talvez seja preciso esperar que todas as folhas ventem ao chão para que o outono saiba que passou. Talvez seja preciso ver a neve encobrir o jardim todo, para que o inverno decida ir embora. Talvez seja preciso acreditar que haverá algum lugar, em que pássaros azuis possam voar, onde a casa solitária e fria, abrigará os sonhos mais esperados e os abraços mais quentes no topo da chaminé.


Talvez seja preciso permitir que os novelos se desenrolem ao chão, percorrendo seus próprios fios, como o orvalho que escorre na vidraça. Tecendo um a um, ponto a ponto, nó por nó, reconhecendo o valor dos remendos e das friacas; dos fiapos e dos desencontros; das nuvens e das esperas, até que suas pontas se enlaçem num tecido bem acabado. Ornamentado e arrematado, no instante em que vidas possam ser, enfim colapsadas. Entrelaçadas e bordadas, no tempo certo, em algum lugar, além do arco-íris…

“Somewhere over the rainbow, blue birds fly. And the dreams that you dreamed of.
Dreams really do come true.”

“Em algum lugar além do arco-íris, pássaros azuis voam. E os sonhos que você sonhou. Sonhos realmente se tornam realidade.”


Direitos autorais da imagem de capa: filme “A casa no lago”.





Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.