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Ser “algodão entre cristais”!

Ouvi a expressão “ser algodão entre cristais” pela primeira vez há poucos dias, quando conversava com uma pessoa que trabalha em um órgão do governo federal e ela usou o termo referindo-se ao desgaste que é administrar “egos”, pois no meio em que transita, o cuidado para não “ferir” é exagerado.


O dicionário nos diz que o termo “melindre” é “a facilidade em amuar. Delicadeza afetada ou natural no trato. Cuidado extremo em não magoar ou ofender por palavras ou obras”.

Quando se vive em um “mundo” de estrelas, cada uma quer brilhar mais que a outra, como se o brilho fosse causado pelo acúmulo de olhares recebidos e não pela emissão da luz que se faz por sua natureza reflexiva. Quantas vezes olhamos para alguém e identificamos uma “luz” especial e em outras pessoas não notamos nada de diferente?

Pensando na expressão usada, identificamos o quanto as pessoas estão mais preocupadas em saber como são percebidas e recebidas do que em realmente viverem suas escolhas e vocações da melhor forma possível, o que com certeza, lhes faria brilhar.


Quando dois cristais se “esbarram” é grande a possibilidade de que eles se trinquem, ou mesmo quebrem. E quando isso acontece, não é possível a recuperação das peças. Os seres humanos, ao agirem movidos pelo “ego”, estão anulando suas capacidades de convivência e busca de entendimento, em que as relações vão se fortalecendo e trazendo conquistas. Forçam as pessoas que estão ao redor a agirem como “algodões”, a fim de evitar o atrito que porá tudo a perder. Desprezam suas capacidades de reconstrução!

Vamos trazer essa situação para dentro de nossos lares. Quantas famílias estão vivendo em um contexto de cristais e algodões. Filhos tentando evitar maiores conflitos entre pais. Mães tentando evitar brigas entre pais e filhos. Pais que não sabem mais o que fazer para impedirem a “terceira guerra mundial” entre irmãos, e assim sucessivamente.

“Cuidado extremo em não magoar ou ofender por palavras ou obras.” Isso ocorre porque quem se sente ofendido é extremamente sensível a determinadas situações, não tolerando ser contrariado no que pensa ser o melhor. É viver constantemente se comparando e se avaliando, necessitando sempre da certeza de que está à frente dos demais.


Em ambientes formados por pessoas que assim se comportam, o relacionamento torna-se cauteloso e superficial. As pessoas “caminham sobre ovos”, não podem se expressar com espontaneidade e o estado de tensão gerado torna a permanência curta e desagradável. Nas empresas esse comportamento também é muito comum. “Chefes” que querem sempre um elogio, e “ai” dos que não o fizerem ou ainda, atreverem-se a criticá-los.

Um dos motivos que faz com que estas pessoas ajam assim é a supervalorização de suas qualidades. Normalmente são pessoas que sentem certa dificuldade em praticar atos simples, corriqueiros mesmo e então se supervalorizam, só que a falta de humildade, a necessidade de auto-afirmação alimentam o comportamento que, no mínimo, afasta destas pessoas aqueles que realmente as querem bem. Ficam, então, cercados por “interesseiros” e pelos que são obrigados a aturá-los, porque são subalternos hierárquicos e que acabam por se tornarem algodões. São os que tem muito a perder. Haja tensão!

Na disputa de “quem é mais”, de “quem manda aqui”, do “vamos ver quem se sobressai”, o foco nunca é o objetivo que mantém tais pessoas reunidas, ou seja, se é no trabalho, “danem-se” os resultados, na família, “dane-se” a harmonia, se no convívio social, “bye-bye” ao prazer que a atividade poderia proporcionar. A cegueira gera melindres.

O interessante é que estas pessoas, quando buscam o motivo que as tornaram cercadas apenas por interesseiros, ou absolutamente sós, mesmo nas famílias, começam a perceber o grande valor que têm a partir do momento em que se permitem olhar para dentro de si mesmas.  Deixar de ser cego é conhecer a si mesmo. Percebem também que não precisam se auto-afirmar, pois sua auto-estima tornou-se equilibrada e harmônica consigo mesmo.

Por Paulo Salvio Antolini





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