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Algumas mulheres enganam pela fragilidade aparente. São muralhas!

Há cenas que ficam guardadas dentro de nós e que parece que querem saltar e se projetar em telão, tomar forma no mundo, transformar-se em luz. Muitas vezes não sabemos o porquê, mas elas ficam lá, latentes, clamando para sair do anonimato. Por isso, já que não sou cineasta, escrevo.


Há uma semana o rosto daquela mulher não me sai da mente. Sereno, de feições frágeis, olhos castanhos leves e quebrantados; trazia impresso em si as marcas do sofrimento.

Lembro-me perfeitamente das palavras do tabelião, dirigindo-se à senhora:

 – A senhora assina, não assina?

Ela respondeu com uma voz mais frágil que os traços do seu rosto:


– Assim… se for devagarinho eu assino.

Havia saído naquela manhã para concluir o registro de um imóvel adquirido. Aguardava a impressão de um boleto para recolhimento de taxa para o cartório. Absorta em meus pensamentos, quase não me dei conta da presença da mulher, mas foi impossível me manter na abstração ao ouvir sua voz. Comecei a olhar para o seu rosto e fui me aprofundando na observação dos seus traços.


Fiquei, por um momento, me imaginando na pele de Dona Vilma. Pensei em quais seriam os retratos e as paisagens que ela trazia na mente.

Imaginei-me mãe de sua prole e ponderei sobre seus possíveis feitos. Por alguma razão, imaginei que se eu fosse ela, certamente seria mais forte que sou.

Observei Dona Vilma desenhar as letras traçadas pelo dono do cartório. Ele parecia um pai ensinando uma filha a escrever. Admirei aquele homem pela sua atitude. Havia doçura no conduzir o processo e ele fora, naquela hora, profissionalmente instrumento pedagógico.

Dirigi o olhar para o seu filho André, que fora meu colega de trabalho e ocupava uma mesa à minha frente. Notei que ao invés de observar a senhora, aprendendo de seu pai, era a mim que ele observava.

De súbito, voltei a mim. Agora estava com a visão turva pelos olhos umedecidos. Não mais me imaginei na pele de Dona Vilma. Estava eu ali, professora, impotente, porque aquela figura frágil representava uma multidão de mulheres, mães, donas de casa, para quem fala e escrita não podem ser mais importantes que se desmanchar em amor pela sobrevivência de si e dos seus.

No meu processo de sobrevivência, por intervenção de minha mãe, encontrei a escola no caminho. O de minha mãe, por sua vez, foi parecido com o de Dona Vilma, e, talvez, por isso, eu tenha saído daquela sala com a chuva nos olhos, o sereno no coração e um retrato na mente.

Mulheres assim, enganam pela fragilidade aparente. São muralhas!


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123rf / prometeus

 

 





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