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Alimentos que nos chegam ao prato não foram feitos para comer, diz a médica Cristina Sales

Os alimentos que ingerimos e a forma como o fazemos é a origem da maioria das doenças que afetam o homem do século XXI, explica a médica Cristina Sales.

Fala-se cada vez mais sobre o tipo de alimentação que temos e como nossos hábitos alimentares contribuem para a qualidade da vida que levamos. As pessoas parecem estar aos poucos se conscientizando de que grande parte de suas condições de saúde provém da falta de cuidado com a alimentação e com o próprio corpo.


Cada vez mais as pessoas buscam alguma atividade física ou uma nova dieta que as ajude a perder peso e conquistar uma rotina mais saudável, isso porque sentem o mal que certos alimentos causam em seus organismos. No entanto, ainda há muitos que não compreendem ou não se importam com os malefícios de uma alimentação não saudável.

Torna-se cada vez mais importante ouvirmos a opinião de pessoas que realmente entendem do assunto e podem nos fazer abrir os olhos sobre a importância de nos alimentarmos bem e preservarmos a nossa saúde.

A médica e especialista em alimentação portuguesa Cristina Sales, exerce a medicina funcional integrativa, uma forma de trabalho que reúne diferentes disciplinas, profissionais e recursos terapêuticos, é centrada na pessoa e procura entender onde estão os desequilíbrios que desencadeiam a doença. Ela atende inúmeros pacientes com condições crônicas como alergias, enxaquecas, fadiga crônica, doenças inflamatórias, endócrinas, metabólicas e autoimunes que não conseguem solucionar seus problemas de nenhuma outra maneira.

Para a médica, os alimentos que ingerimos e a forma como o fazemos é a origem da maioria das doenças que afetam o homem do século XXI.


Ela ainda acrescenta que os alimentos são veículos de comunicação: dizem às células como devem se comportar.

Abaixo, mostramos alguns trechos de uma entrevista concedida à jornalista Célia Rosa, do jornal português DN.


Precisamos mudar a forma como nos alimentamos?

É obrigatório que o façamos, pois a alimentação que a população dos países ocidentais, incluindo Portugal, passou a ter nos últimos cinquenta anos é a origem da maior parte das doenças endócrinas, metabólicas, autoimunes, degenerativas e alérgicas. As novas epidemias devem-se sobretudo aos estilos de vida e à alimentação que fazemos desde o pós-guerra.


A alimentação é decisiva para a saúde e o bem-estar, mas está a provocar doenças e a aumentar a mortalidade precoce?

A geração dos nossos filhos terá uma esperança de vida mais reduzida do que a nossa, por causa dos estilos de vida e da alimentação. Primeiro, os produtos altamente processados pela indústria alimentar conduzem a uma desnutrição em nutrientes fundamentais e ingerimos uma grande quantidade de calorias vazias. Segundo, são muito diferentes dos alimentos originais e o organismo não sabe lidar com eles, não os reconhece como alimentos. Depois, há uma sobrecarga tóxica inerente à alimentação que provém dos agroquímicos (da produção), dos conservantes, corantes e adoçantes que são adicionados para preservar os produtos durante mais tempo e para os manter bonitinhos.


São alimentos para ver…

Os produtos que nos chegam ao prato foram feitos para vender e não para comer. Não têm nada a ver com os alimentos que ingerimos e que nos fizeram viver e sobreviver ao longo de milhões de anos. Esta mudança ocorreu tão depressa, que o organismo não está adaptado para gerir, digerir e assimilar estes produtos, pelo contrário, ele os vê como substâncias estranhas e reage inflamando-se.


Como é que podemos nos livrar dessa teia?

As escolhas alimentares são condicionadas pela publicidade, as pessoas não são ensinadas a escolher. Quem é  ensinado a consumir maçãs ou laranjas? Ninguém! A informação que passa de forma subliminar através dos anúncios da TV e dos jornais é que se deve beber sumo de maçã e de laranja. Mas se alguém ler os rótulos das embalagens verifica que contém imenso açúcar, frutose, acidificantes, etc., e o que falta é a maçã e a laranja. É preciso informar, ensinar e consciencializar a população.


A atitude da indústria alimentar precisa mudar?

No global sim, mas também depende do que a indústria faz. A conservação de alimentos através da congelação, por exemplo, é perfeita. Os legumes congelados são uma ótima opção, por vezes mais econômica, e chegam ao consumidor mais frescos e com mais nutrientes do que os que são mantidos durante cinco ou seis dias nas cadeias de distribuição. Já quando falamos de alimentos que levam uma quantidade enorme de aditivos para serem consumidos – é o caso das carnes de muito má qualidade e dos aproveitamentos que se fazem dos restos dos mariscos – é diferente. Sempre que tivermos que dobrar a língua muitas vezes para conseguir ler o que está escrito nos rótulos é porque não é comida. Não compre. Será qualquer coisa que do ponto de vista nutricional, químico e metabólico está muito longe do alimento original.


A forma como nos alimentamos dita o comportamento das células?

Quando ingeridas, as gorduras saturadas e as gorduras ômega 6 (provenientes essencialmente dos animais e dos cereais, sobretudo da soja) são a estrutura a partir da qual as células fazem substâncias pró-inflamatórias. As gorduras ómega 3 – provenientes das algas e dos peixes – são as que permitem que as células produzam substâncias anti-inflamatórias. Se uma pessoa tem uma doença inflamatória (por exemplo, uma alergia, artrite ou doença autoimune), e come muita gordura saturada, esta vai funcionar como substrato para a fogueira e agravar o processo inflamatório da doença que já tem. Ao contrário, se a pessoa ingerir gorduras ómega 3, vai ser capaz de construir extintores de incêndio para que as suas células produzam anti-inflamatórios.


Há outros exemplos?

Se uma pessoa tem tendência depressiva porque não consegue produzir serotonina em quantidade suficiente, deve comer os alimentos que têm os aminoácidos precursores da serotonina – a carne de peru, por exemplo, é extremamente rica em triptofano, que é um precursor da serotonina. Se a pessoa souber isto, no outono, quando o tempo fica mais escuro, porque não há de comer mais carne de peru em vez de carne de vaca?


A alimentação e o processo digestivo podem agravar ou controlar certas doenças?

Sim, se uma pessoa tem uma predisposição genética para a diabetes, Alzheimer etc., a doença só se manifesta se o gene for ativado. Mas o que as pessoas precisam saber é que os genes também podem ser desativados – é a modulação genética através da nutrigenética. Como? O que ativa ou suprime a expressão dos genes é a presença de determinados fitoquímicos, substâncias que também se encontram nos alimentos.


Fala-se muito na responsabilidade social da indústria farmacêutica, que ganha dinheiro à custa do tratamento dos doentes. E quanto à responsabilidade social da indústria alimentar, que ganha dinheiro atirando-nos para a doença?

A indústria alimentar faz maus alimentos, mas a verdade é que as pessoas só compram o que querem. Sei que quanto menor é a informação, maior é a permeabilidade ao marketing, mas o caminho também se faz através da informação dos cidadãos e da sua responsabilização. Custa-me imensamente ver nas caixas de supermercado que as pessoas aparentemente mais pobres também são as que levam os carrinhos repletos de produtos inúteis e nefastos para a sua saúde. É preciso repensar a política alimentar e inovar.

Uma entrevista muito esclarecedora, que nos faz refletir profundamente sobre nossos hábitos! Esperamos que as palavras de Cristina Sales sejam úteis para promover uma mudança positiva em sua vida. Se quiser ler a entrevista completa, clique aqui.

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