Altruístas de nascença?

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Atos de altruísmo, de bondade ou “pró-sociais” são aprendidos socialmente ou são atributos morais genéticos? A teoria de que o altruísmo é parte integrante do comportamento humano, defendida pela psicologia evolutiva, sugere que esses gestos são gratificantes para quem os pratica mesmo quando a pessoa está nas primeiras fases da existência. Um estudo liderado pela psicóloga Lara Aknin na Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá), “Giving Leads to Happiness in Young Children”, publicado recentemente na revista PLoS ONE, reforça a tese.



Em trabalho conduzido anteriormente, Lara e colegas haviam mostrado que crianças que compartilhavam um brinquedo com alguém pareciam mais felizes do que outras que simplesmente se divertiam com ele. A partir daí, a equipe elaborou uma experiência mais complexa: 20 crianças (11 das quais meninos) da cidade de Vancouver, com idade entre um a dois meses antes de completar 2 anos, foram selecionadas e cada uma delas foi apresentada a um macaco de brinquedo, com a explicação de que ele “gostava de guloseimas”. Depois disso, um dos pesquisadores “encontrou” oito petiscos e os deu à cada criança, dizendo que todos aqueles alimentos pertenciam a ela.

A seguir, três cenários diferentes foram armados, em ordem variada. No primeiro, o pesquisador “encontrava” outra guloseima e a dava ao macaco, enquanto a criança observava. No segundo, “encontrava” outro petisco e dava à criança pedindo a ela que o entregasse ao macaco. No último, pedia à criança que compartilhasse uma das oito guloseimas que recebera no início com o macaco.

A felicidade demonstrada pelos pequenos, em cada situação, foi avaliada por observadores independentes por meio de uma escala de sete graduações (1 = nada feliz; 7 = muito feliz). As crianças mostraram-se mais felizes ao dar uma guloseima do que ao recebê- la, e o ápice desse sentimento foi alcançado quando davam um de seus próprios petiscos. Ou seja: era mais gratificante doar algo de seu próprio “patrimônio” do que doar a guloseima que o pesquisador achava e lhes pedia para entregar ao macaco.


“Embora o papel da socialização quase nunca possa ser completamente descartado, os resultados dão suporte ao argumento de que os seres humanos evoluíram para considerar o comportamento pró-social recompensador”, afirmam os pesquisadores no artigo da PlosONE. Questionada sobre se as crianças não pareceriam mais felizes por simplesmente estar fazendo o pesquisador feliz (afora o macaco!), Lara Aknin respondeu: “É definitivamente plausível que as crianças aprenderam que os adultos valorizam o comportamento altruísta e, portanto, sorriram mais, porque esperavam receber recompensas de adultos, quando eles deram mimos.”

A pesquisadora ressalta que um detalhe oferece informações mais conclusivas sobre a natureza do altruísmo de ofertar um dos oito petiscos ou entregar uma guloseima recém-recebida. “Nos dois casos, as crianças estavam se envolvendo num comportamento de doação idêntico – dando uma guloseima – que deveria ser igualmente elogiado ou recompensado por adultos”, observa Lara. “Mas elas eram apenas mais felizes quando essa guloseima lhes pertencia e, portanto, requeria um sacrifício pessoal na doação.”

Por garantia, a equipe também solicitou aos observadores independentes que analisassem a atuação do pesquisador em cada caso, e a avaliação foi que o psicólogo não interferiu no resultado.


O estudo canadense é o primeiro a indicar que o altruísmo é intrinsecamente gratificante, mesmo para crianças pequenas, e a sugerir que elas exibem mais felicidade em dar do que em receber – uma vantagem considerável na educação infantil. A pesquisa também reforça a ideia de que recompensar crianças por um comportamento pró-social pode ter efeito reverso, ou seja, prejudicar a sua “bondade natural”. Uma explicação para isso é que, para crescer vendo-se como bondosa e capaz de doar, a criança deve sentir que pratica o bem porque assim o quer. Não por atender ao desejo de outras pessoas.

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