A doença, de uma maneira geral, pode ser encarada como a expressão mais pungente do que escolho chamar de dor da alma e, nesse sentido, trazer em seu bojo uma metáfora a ser desvendada.



Ela surge, de alguma maneira, como um meio do indivíduo fazer frente ao seu conflito interior, esquecendo-se de outras possibilidades menos danosas. A doença viria preencher algum vazio na vida do paciente, como uma forma de comunicar ao mundo o seu sofrimento.

Esta questão levanta uma outra reflexão subjacente no que se refere ao risco de levar o doente a se considerar responsável pela própria doença. Marco Aurélio Dias da Silva (cardiologista e professor) respondia da seguinte forma: “Por que as pessoas não tem culpa sobre o sofrimento orgânico, mas em relação ao emocional elas tem de ter vergonha? Na nossa cultura não há espaço para o sofrimento emocional ser levado à sério. Tendemos a achar que se o indivíduo é deprimido psicologicamente é porque não reage. Ora, a doença orgânica é, como regra geral, uma maneira diferente do indivíduo expressar seu sofrimento emocional.”

Segundo Dr. Marco Aurélio (que também foi autor, dentre outros, do livro “Quem Ama Não Adoece”), em estados de depressão, o organismo perderia a capacidade de reconhecer e dar combate às células malignas, as quais se reproduziriam livremente. Citava, como exemplo, o estudo de um grupo de 40 mulheres assintomáticas  mas com o teste de Papanicolau predisponente ao câncer. Levantaram como hipótese, no decorrer do estudo, uma relação direta entre câncer de colo de útero e sentimentos de desesperança e/ou reação às perdas recentes e significativas. Houve acerto de 75% dos casos.


Observava, também, um perfil predominante amável, generoso e bondoso nos pacientes de câncer o que sugeriria que tal dose de generosidade estaria, na realidade, relacionada à baixa dose de auto-estima – tais pessoas não se amariam o bastante e a exagerada bondade seria a alternativa que percebiam como única capaz de fazê-las receberem, em contrapartida, “o mínimo de amor que desesperadamente necessitavam”.

O doente de câncer seria alguém que vivencia um desespero contido, escondido dos outros e voltado para si mesmo. Resignado e cortês por fora mas todo raiva e frustração por dentro”, salientava Marco Antonio.

Nosso corpo produziria, então, substâncias, como os neurotransmissores, que tem uma clara ação sobre os órgãos e são comandados pelo psiquismo. Na verdade, segundo ele, seriam  a ponte entre o sofrimento emocional e o mau funcionamento do organismo.

O câncer seria, assim, uma tristeza interiorizada. O indivíduo que “faz” um câncer, como regra geral, é muito bem aparente e exteriormente. Mas todas as mágoas, todas as angústias, estão ali interiorizadas e lhe  corroendo por dentro.


Acredito que o paciente portador de câncer comumente assimila e/ou reprime os sentimentos hostis tendo dificuldade de exprimir qualquer sentimento de raiva ou rancor.

Está escondido por detrás da “fachada” bondosa, perpetuada numa calma e numa tolerância exageradas. É capaz de “morrer pela pátria”, de brigar por causas gerais e coletivas, mas incapaz de tornar-se hostil na defesa de suas necessidades ou direitos pessoais. Não sabe exigir nada para si. Provavelmente esta alienação no que tange suas próprias necessidades e seus mais primitivos anseios, caracteriza seu (único) modo de se relacionar com o mundo. Modo este que lhe consome a vida tanto o quanto a doença lhe consome o organismo.

A doença parece ser, então, quase que a única possibilidade existencial deste indivíduo realizar-se. Na mesma medida, a doença também o auxiliaria a livrar-se de si mesmo, do fardo de sua própria existência, mergulhado que está em uma vida esvaziada de satisfação verdadeira, de algo que dê significado ao simples fato de enfrentar o cotidiano com esperança e entusiasmo.

Logo, a paz interior, necessariamente relacionada ao amor pela vida e pelo mundo, torna a vida muito mais plena para ser vivida. E o homem pode alcançar isto desde que busque a compreensão mais genuína e sincera do que vive, do que deseja e do que pode viver, aceitando a realidade sem fantasiá-la, sem amaldiçoá-la, serenamente e com a consciência tranquila.


A capacidade de amar a todos indistintamente, ou seja, tanto as pessoas quanto a natureza, é o melhor caminho que dispomos – desde que mergulhado no ato generoso de amar o amor por si e cuidando de escolher os melhores objetos nos quais depositar este precioso sentimento.

Eu acrescentaria ainda que tanto este amor amplo quanto o amor individualizado, ou seja, aquele realizado junto ao parceiro desejado, o companheiro que acolhe e abraça, com o qual possa haver troca de carinho e de afeto, de amor genuíno e entregue, formam o grande BÁLSAMO capaz de cuidar, curar e salvar toda a vida do deserto e da desesperança mortais.

E só assim, creio, percebendo a importância do amor como antídoto, no melhor e mais esplendoroso sentido, alcançaremos a compreensão da nossa angústia existencial e caminharemos em direção da saúde e da felicidade.


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