Amor não é feito de migalhas…



Funciona mais ou menos assim: você acorda num sábado florido de primavera, e tudo que consegue desejar é um suco de laranja geladinho feito na hora. Com os lábios já sedentos e a boca salivando, corre até a cozinha e lá tem melão, limão, jabuticaba, até tangerina, mas não tem laranja. Ao invés de ir até o sacolão da esquina barganhar meia dúzia da fruta, você aceita o fato de que o universo não estava conspirando a seu favor naquela manhã e termina por fazer o seu desjejum com o habitual café com leite, já que um suco de qualquer outra fruta apenas ressaltaria a sua verdadeira vontade de tomar um simples suco de laranja.

Você não fez limonadas com os limões, muito menos vitaminas exóticas com a tangerina. Ao contrário disso, recorreu ao café da manhã convencional de todo dia porque tão somente, era aquilo que a sua geladeira podia oferecer na hora. Trocando frutas e geladeiras por pessoas e relacionamentos, temos parcerias seladas unicamente pela conveniência e por uma omissão de vontades unilateral em que, um dos lados dita o caminho e o outro, simplesmente, aceita.

Não, eu não preciso me contentar com uma circunstância que não está dentro daquilo que eu desejo. Reconheço que o mundo não gira em torno do meu umbigo e de fato, o universo tem maneiras misteriosas de se fazer entender. Mas se meu desejo é de arroz com feijão, puro e simples com cara de casa de vó, porque eu preciso me contentar com um sanduíche de atum, que apesar de gostoso, não sacia a fome? É muito prático sair pregando por aí a aura zen, pacífica, tranquila, de quem medita e faz yoga às 5 da manhã e consegue ter um dia pleno, calmo e totalmente desprovido de apego. Acho lindo, fantástico e transformador, porém nem todo mundo atingiu esse nível de serenidade. Acho que o mínimo que a gente merece depois de um dia inteiro de trabalho árduo é o direito, único e exclusivo, de pelo menos escolher aquilo que se quer comer.

A mesma coisa pode ser transposta para os relacionamentos. O cara te oferece encontros esporádicos, divertidos, recheados de entrega, porém sem direito a mensagem no dia seguinte, presença na festa da amiga ou qualquer tipo de “certeza” que alivie as angústias do seu coração, sendo que nesse momento da sua vida você quer um relacionamento sério, e ele, infelizmente, não.

Ou a menina que acabou de sair de uma relação conturbada e não quer se envolver com ninguém por agora (pelo menos não com você) e trata com descaso seu convite para o cinema, inventa mentiras para justificar a ausência, mas seus encontros são tão sorridentes que você hesita todas às vezes em dizer não. Em ambos os casos, vocês não querem a mesma coisa. Fim. Não tem meio termo, vírgula, entrelinha, não tem discussão. O “agora não”, muitas vezes, vem mascarado de um monte de desculpas.

Eu acredito que para tudo nessa vida existe solução: distância, falta de tempo, incompatibilidade de horário, mudança de país, tudo, absolutamente tudo tem uma solução por mais desgastante que pareça. Mas para falta de vontade, falta de amor, para isso eu não tenho alternativa. A gente pode sim esperar o timing do outro, aliás, é muito comum a gente abrir mão do nosso desejo inicial como “prova” de aceitação e forma de permanecer naquela história superficialmente inteira. Abandona aquele sonho cuidadosamente moldado ao longo de anos, em prol de se “encaixar” como numa peça de um quebra cabeça na vivência de outro alguém. Muda pelo outro e não pela gente. Amor não é assim. Estar junto de alguém em uma parceria não é assim. Momento de vida é uma coisa muito particular. Para se fazer parte da travessia de alguém é preciso uma permissividade muito ímpar, de quem ainda pode nem ter certeza daquilo que quer. Bem a história da Summer e do Tom (do filme “500 dias com ela”). Não importa o quanto a gente se entregue, faça valer a pena, aponte os pontos positivos, ou simplesmente, não importa o quanto de espera seja destinada àquela relação, às vezes, o santo não bateu foi com a gente.



Saber reconhecer quando vale ou não a pena dividir o precioso espaço do seu suco de laranja com o café com leite de outro alguém, é essencial para o nosso bem estar físico e emocional, bem como, para a manutenção da integridade dos nossos planos de vida. Insistir em um caminho de portas semi-abertas e de reciprocidade pela metade é desgaste desnecessário tanto para a alma, quanto para o coração.

Se contentar com algo que nos é ofertado puramente porque a pessoa que você tanto deseja só tem aquilo a oferecer no momento, mais do que perda de tempo, é perda de vida. O que para uns pode parecer arrogância, para mim eu chamo de amor próprio. Deixamos tantos sinais pelos caminhos que se o outro quiser comprar a bagagem, ele sabe em qual estação nos encontrar. Que sejamos resistentes para permanecer na travessia o suficiente para derrubar os muros da consistência do outro. E acima de tudo, que sejamos resilientes, para saber a hora de se afastar e deixar o outro por si só descobrir em que parte desse caminho se encaixa as vontades dele. Pode ser que ele (a) se encontre na nossa ausência e os olhares se virem para uma mesma direção.

Ou, pode ser que apesar dos pesares, seja necessário seguir a travessia sozinho. Nada machuca mais, do que estar ao lado de alguém na expectativa de que esta pessoa milagrosamente decida colocar os dois pés dentro da nossa vivência. E convenhamos, persistência e insistência nunca foram bons motivos para sustentar parceria nenhuma.

Claro que nem sempre a vontade de suco de laranja será de comum acordo, mas o complemento do café da manhã precisa ser bom o suficiente, para fazer valer a pena permanecer sentada à mesa para as próximas refeições. Amor acima de qualquer coisa é encontro de vontades. Não um mantra diário da aceitação dos anseios do outro. Só porque a fome está na lista dos desejos mais urgentes do mundo, não significa que a gente precisa se contentar com qualquer migalha de biscoito que aparece dando sopa pelo caminho. Onde existe criatividade e reciprocidade até pão de forma vencido vira mini pizza para o jantar.

Por: Danielle Daian – Via: Casal Sem Vergonha






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