ColunistasComportamentoRelacionamentos

Anatomia do machismo…

brigite jones

A juíza que foi feita refém e ameaçada de morte há algumas semanas disse uma das frases mais pungentes que ouvi nos últimos tempos:



“Sinto-me tão vítima quanto todas as mulheres que me atendo todos os dias e que pedem ajuda à justiça.”

Lembro-me da cena na qual a conhecida personagem Bridget Jones – então presa sob a falsa acusação de tráfico – conversa com as outras mulheres na cela. Ela reclama do então ex-namorado Mark Darcy por pequenos percalços da vida a dois enquanto as outras relatam atrocidades que sofrem com seus companheiros agressores. Bridget cai na real sobre si e sobre a triste realidade vivida por mulheres em todo o mundo, desde a Tailândia até a casa ao lado.

O machismo existe e os homens ainda se acham no direito de ameaçar mulheres através da violência verbal, física e se acham do direito de mentir, de exercer coesão e de se aproveitar do afeto delas para satisfazerem sua variada lista de necessidades.


O afeto de uma mulher ao seu agressor passa necessariamente pela obra de Sigmund Freud sobre a vida, a existência e as relações humanas e deve passar também pela antropologia e pelo conceito de família instituído pelas religiões modernas que deram e dão ainda aos homens o poder absoluto sobre suas esposas e o aval para que se relacionem com outras mulheres enquanto estas lhe servem submissas. Parece pesado, mas se eu retirar a camadas superficiais da grande maioria dos relacionamentos de hoje, se eu dissecar os homens tal qual em uma aula de anatomia, hei de encontrar pelo menos algum resquício daquele homem que ameaçou matar a “pilantra” (segundo ele) que exercia sua profissão de juíza, munindo-se da lei para defender outras mulheres – inclusive outra também ameaçada por ele.

Que direito esses homens acham que tem de agir assim?

Como pode o machismo do alcorão e do antigo testamento ainda não terem sido extintos?

Será que ele faria o mesmo com um juiz do sexo masculino?


Quantas são as mulheres que perdoam; que baixam suas cabeças e que enganam a si próprias sobre as reais intenções de homens que as controlam com migalhas de falso afeto e as mantém sob um cárcere emocional, financeiro e muitas vezes real levando-as a voltar ás delegacias de mulheres no dia seguinte para retirarem as queixas imaginando ser melhor “deixar como está” exatamente porque nós mulheres ainda somos as erradas até que se prove o contrário.

Ao “dissecar o cadáver” vivo daquele homem, observando o seu comportamento podemos aprender muitas características comuns em todos os machistas agressores. A covardia, o falso-moralismo, o desamor por si próprio e pelo outro, a capacidade de se vitimizar, de distorcer os fatos em favor de si, a intensa preocupação com sua imagem e o discurso à sociedade sempre a julgar os outros e a querer evidenciar seu caráter idôneo.

Os homens machistas – sejam os agressores físicos, verbais, os chantagistas ou os que se utilizam do afeto das mulheres para obter qualquer tipo de prazer – só vão ser extintos quando as mulheres encontrarem a saída do labirinto que as levará a luz do aprendizado do seu real direito e do seu real papel na sociedade. Quando deixarem de permitir que eles sigam sugando-as como vampiros a se alimentar do afeto que elas, cegamente e erradamente lhes dão – confusas e perdidas sobre o que devem esperar de um homem.

Mulheres crescem quase sempre sem referência alguma sobre si e tampouco sobre os seres humanos do sexo oposto. Desconhecem padrões reais de comportamento adequado nas relações; visto que uma grande maioria vaga entre o mundo das princesas e príncipes e a vida real na qual entre os relacionamentos saudáveis estão muitas mulheres que desistiram de se relacionar e as que são constantemente agredidas. Os homens, infelizmente, quando não são machistas, se calam diante de uma realidade que não os afeta.


Ao ouvir o relato das amigas de cela Bridget Jones percebe o quanto Mark Darcy é um homem encantador, apesar de estar longe dos padrões principescos e o quanto ela estava sendo injusta com ele. Ao lerem este artigo o que eu espero de cada mulher é que valorize seu companheiro caso ele seja como Mark e que busque ajuda e libertação caso esteja presa a algum algoz. Afeto não se pede; não se mendiga e não está nas belas palavras, nas declarações de amor e nas noites intensas de sexo. Amar é importar-se.

Meu jeito moderno te incomoda?

Artigo Anterior

13 linhas para viver… – por gabriel garcia marquez

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.