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Aos olhos de uns, a casa é um utilitário inanimado. Para outros, é o Lar pleno de vida!

Eu me habituo a uma casa, como se ela fosse uma pessoa. Mesmo que sua aparência seja inferior e a localização não seja tão adequada, quanto à atual residência — ainda assim — não consigo evitar a sensação de que deixei um pouco de mim, em cada vão ou arranhão. Em cada planta que plantei. No sabiá, avisando que o dia despontava. E nas araras barulhentas, e em todos aqueles pássaros felizes, e no janelão fresco da cozinha. Ah, se pudesse trazê-los comigo, para a nova moradia!


Foi assim que acordei, duas semanas após haver me mudado: com o cérebro dessintonizado, buscando localizar-me, naquela manhã calada e calorenta. Incomodada, percebi que faltava a sutileza da harmonia à qual me acostumara. Com o pretexto de ir buscar alguns limões, voltei à velha moradia. Já tinha voltado antes, mas não como nessa manhã recente. Antes, fora por necessidade e, naquele momento, tomada por uma repentina… Falta? Para que mudar o nome do sentimento, pois a falta que se sente não é sinônimo da saudade?

Não havia me preparado para aquele silêncio doloroso. Para aquela espantosa face da solidão de uma casa. A desolação parecia tê-la deixado menor, encolhida, curvada. As folhas invadiram a varanda… E os pés de cajus, que me atiravam seus frutos a cada cinco minutos, como por encanto, não exibiam nenhum. Nenhum! Nem no chão, e nem nos galhos. Os passarinhos desapareceram, e até os besouros e as abelhas que zanzavam por ali. Sem a água que eu guarnecia, e sem alimento, partiram em busca de um lar melhor —  habitado — buscando a sobrevivência tão inerente a qualquer ser vivente.  Havia uma quietude incomoda. Um amuo, uma tristeza palpável. Tudo parecia espreitar-me e indagar: “Por que você nos abandonou?!”

Estremeci de embaraço, como se estivesse diante de uma grande amiga, que abandonei depois de utilizá-la por um bom tempo. Uma amiga que me ofereceu esteio, segurança, e muitos momentos agradáveis. Sai às pressas, sem levar o que fora buscar. Passei a tarde engasgada, com um Judas atravessado na garganta. No dia seguinte, mal o Sol rompera, voltei munida de mangueira, sacos de lixos, e outros apetrechos de limpeza. Graças a Deus, sou uma mulher sem frescura, e não sinto nenhum constrangimento em caminhar por calçadas, topando com pessoas conhecidas, e carregada feito uma jumenta nordestina.


Escancarei as janelas, arregacei as mangas, e fui tirando poeira e folhas. Os cantos me cercavam, ondulantes dos risos que já estiveram ali. As imagens eram vivas — quase físicas — e minha memória, clareada pela emoção, seria capaz de lembrar-se de cada filme assistido, de cada conversa humorada, de cada sonho nascido. Do primeiro aniversário de meu neto Estevan, afundando com gana, a mãozinha, no glacê do bolo; das reuniões semanais dos jovens da igreja, ensaiando uma peça de teatro para o Natal, na grande sala, que hoje é uma varanda. Às vezes, pediam minha opinião, noutras, eu dava meus pitacos de diretora, como se entendesse alguma coisa de teatro. E, depois, vinha o momento da pipoca, e das revelações. Mocinhas e rapazes, bem jovens, mas, surpreendendo-me, por já saberem o que pretendiam ser, no futuro. Meninos e meninas, que hoje são pais de família; e quase todos realizaram os sonhos acalentados.

Agradeci à casa, pelo tempo que ela me acolheu. Agradeci por ter protegido minha família do sol, da chuva, e dos perigos que rondam lá fora. Agradeci pelos momentos que suas paredes vinham em forma de abraços e de ouvidos que guardam segredos. Agradeci a Deus, pelos momentos preciosos, e pelas lutas vencidas, que ali vivi; e voltei quase me arrastando — quebrada como um arroz de terceira. Mas a alma flutuava, na leveza da justiça feita. Judas, havia sumido da garganta e, em seu lugar, havia apenas um daqueles comichões de emoção, quando temos que dizer adeus, ou quando é necessário virarmos uma página…

Os capítulos de minha história continuarão, como um rio que segue seu curso sem ser desviado, ainda que meu palco esteja num novo endereço. A relevância foi ter conseguido ressuscitar o riso da amiga que, por um tempo, foi meu lar. Com a paz recuperada, confessei-lhe, ao pé de um dos seus batentes — antes de partir — que brevemente ela teria companhia!






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