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Após “recado” do mercado, Lula acena com política industrial

Foto: Depositphotos.com
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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será o candidato do PT à Presidência da República, tem se esforçado para demonstrar ter entendido os recados que o setor industrial brasileiro fez chegar à sua campanha sobre a necessidade de se propor uma política industrial para um eventual futuro governo.

Favorito nas pesquisas de intenção de voto e em uma disputa hoje polarizada com o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), que disputará a reeleição,

Lula passou a incorporar em seus discursos a necessidade de um novo conjunto de ações com o objetivo de desenvolvimento da indústria do país.

Não há mais discurso do petista que não bata na necessidade de uma “política industrial”. Além disso, sua assessoria tem se dedicado à produção de informes sobre o assunto.

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Os primeiros recados de demandas começaram a ser emitidos no fim do ano passado. Um exemplo disso ocorreu durante a visita do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ao Brasil, em novembro.

Na época, o argentino se reuniu com empresários da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), e, de lá, partiu para um encontro com o petista, no Instituto Lula, no bairro Ipiranga.

Kicillof veio ao Brasil em busca de acordo com interlocutores do ex-presidente. O recado levado pelo político argentino da Avenida Paulista para o PT indicou o caminho de reaproximação com o setor: “Queremos uma política industrial”, dizia a mensagem.

Lula entendeu que é esse caminho que deve percorrer para reverter o rompimento ocorrido quando seu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci assinou delação premiada na Polícia Federal no âmbito da Operação Lava Jato.

“Sem Posto Ipiranga”

Palocci era o interlocutor de Lula com a Faria Lima, centro financeiro do país. Lula, hoje, não pretende ter essa figura em sua campanha ou eventual governo, visto que acredita que o mercado já o conhece e sabe o quanto o setor financeiro lucrou em seu governo.

“Nós não teremos um Posto Ipiranga”, diz Guilherme Mello, economista, e coordenador na Fundação Perseu Abramo, um dos 86 nomes que discutem nos grupos temáticos a formulação de propostas para um eventual próximo governo de Lula.

“Figura mítica”

Na opinião de Mello, esse modelo de interlocução garantido por Palocci na chegada do petista ao poder, a partir de 2003, não cabe mais para Lula.

“A situação agora é diferente. Em 2003, Lula nunca tinha sido presidente, nunca tinha assumido um governo, havia a necessidade de entender e dar avais sobre esses assuntos. Então, o tipo de diálogo que se construiu naquele momento era de uma natureza de uma pessoa que o mercado não conhecia. Conhecia-se o histórico, sua candidatura, mas não a função no governo”.

“É diferente de agora. Lula foi presidente durante oito anos. Foi superbem avaliado, tinha uma relação excelente tanto com empresários quanto com movimentos sociais. Então eu acho que essa figura mítica que se criou da ponte feita pelo Palocci e por outras figuras com o mercado e tudo mais, acho que não é uma figura que faz sentido como fazia em 2002 e 2002″”, disse Mello.

“Isso não quer dizer que não existam pessoas que vão, eventualmente, costurar uma diálogo com setores”, apontou.

Além disso, há no PT resistência a depender de um quadro com pretensões políticas para encarnar a tarefa de recuperar a economia. Um dos petistas ouvidos disse, sob pedido de anonimato, esperar que Lula não repita o erro de se ter outro Palocci nessa interlocução.

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A resposta repetida por Lula nos discursos que faz aos empresários procura enfatizar dois elementos: “Soberania”, conceito que engloba recuperar o papel estatal da Petrobras e políticas para diminuir o preço dos combustíveis; e “nova política industrial”, que aponta para a utilização dos bancos públicos como financiadores do desenvolvimento.

“Quando eu falo em soberania, é porque este país não precisa ter gasolina, nem gás nem diesel em dólar, este país não precisava estar importando fertilizantes, este país não precisava ter jovens fugindo do país para ter emprego lá fora. No meu governo, o pessoal vinha de fora para trabalhar aqui dentro”, disse Lula em discurso durante as comemorações de 100 anos do Partido Comunista, ato organizado pelo PCdoB, em Niterói, no último sábado (26/3).

“Significa que a gente vai ter que ter uma nova política industrial, discutir que nicho de indústria nós vamos querer neste país, porque apenas quebrar os direitos dos trabalhadores dizendo que vai melhorar a vida do Brasil, que o Brasil vai ser mais competitivo, é mentira”, destacou o petista no discurso.

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