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Aquela dorzinha da retrospectiva…

“Às vezes, a dorzinha é uma baita dor. Às vezes, ela é uma cadeira vazia, noutras, é um dedo sem aliança. No geral, ela é amiga da retrospectiva.”



Novembro não é um mês fácil, definitivamente. Até chegarem as festas, a gente sente uma dorzinha no peito difícil de fugir.

(Porque dezembro é um mês que praticamente não existe. Se em novembro já é natal, dezembro é a ceia completa e a rabanada gelada no dia seguinte)

Começa a enxurrada de propagandas de fim de ano, a musiquinha da Globo, a decoração no comércio, e ela está l á: a dorzinha.


A gente já pensa em marcar a última cerveja com os amigos, inventa de fazer um amigo oculto com o pessoal do trabalho, parte da família está brigada e então não vai ter nada na casa da avó… É aquele velho conhecido ritual que vai se concretizando.

Aí a gente se dá alguns direitos esquisitos e se cobra, igualmente, tarefas de um jeito tão esquisito quanto. “Preciso comprar alguma coisa pra mim” ou “tenho que resolver esse problema antes das f estas”.

Todo fim de ano, por exemplo, tem gente que gosta de arrumar as gavetas. As gavetas de calcinha ou cueca, as gavetas de papéis, as gavetas da cozinha que já não separam os talheres, as gavetas que, talvez, na verdade, sejam as gavetas de um coração meio cansado. Um coração já enferrujado que precisa de óleo, uma pequena esperança, talvez, ainda que seja de um novo ano, novo ciclo.

Às vezes a dorzinha é uma baita dor. Às vezes, ela é uma cadeira vazia, noutras, é um dedo sem aliança. No geral, ela é amiga da retrospectiva.


Mesmo que hoje exista um novo amor, ou uma dor cicatrizada, no fim de ano ela abre na memória. E escorre. Nem sempre escorre fazendo um tsunami, há jeitos mais contidos de senti­la, mas a gente sente. E ela se arrasta silenciosamente ­ ou não.

Eu não sei se tem um jeito pra lidar com isso, se, de fato, é preciso lidar com isso. Desconfio apenas de que o melhor jeito de lidar seja não lidando. Porque, se a gente for parar pra pensar, o que adianta não comer lentilha este ano pelo simples fato de querer fazer tudo ao contrário?

É se importar com a mesma intensidade de quando se come a lentilha, se veste de branco e segue a cartilha.

Lutar contra isso pode ser uma tentativa de lutar contra a dor. E a dor é só uma marca de quem viveu um ano inteiro fazendo coisa­que­gente­faz. Besteiras, provavelmente. É que as lembranças ruins, nessa época, são como bolhas que suportamos durante doze meses e, de repente, elas estouram.


A retrospectiva, inevitável nesse período, é coisa de gente viva.

Se o ano que fica não é possível de ser comemorado, que comemoremos, pelo menos, mais uma chance de sentir essa dorzinha.

A estrela que você é: meditação da conexão eterna com a fonte cósmica…

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