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AS COISAS QUE SÓ SINTO COM VOCÊ

Hoje eu esperei você ligar, mas não foi igual aos outros dias. Não foi igual ao dia em que a gente marcou de ver aquela peça cafona da Zezé Polessa que tava passando no Shopping da Gávea, quando eu ouvi tua voz pela primeira vez. Não foi igual ao dia em que a gente combinou de ir pra praia da Reserva e eu esqueci os shorts em casa e você ligou pra dizer que também iria se atrasar. Não foi igual a nenhuma das outras vezes desses 437 dias que a gente tem se esbarrado.



Eu esperei na porta de casa porque tinha esquecido a chave, você me disse que não cruzaria a cidade pra me salvar, quando foi que isso mudou? De repente bateu uma coisa, um aperto no peito, uma angústia que podia ter sido provocada pela música que eu ouvia no iPod, dizem que o estresse até faz a gente imaginar as coisas, mas imaginar amor? Jamais. Eu olhei pro celular a cada notificação e nenhuma era tua. Chequei pra ver se você dava check-in no 4square ou no Facebook, pra ter algum vestígio de você. Eu tava ouvindo uma música que dizia que o amor nunca é como um sussurro e, sim, ele se dissipa. Tô vendo marcado no teu rosto, nas expressões, que ele se dissipou faz tempo. Uma pena que ele nunca vai embora ao mesmo tempo pros dois.

Hoje eu esperei você me dizer como foi o seu dia – porque eu acho deliciosa a forma como você se dedica a sua vida, como você transpira paixão até quando fala que tá cansando do trabalho novo, será que você fala assim sobre mim, será que eu também te inspiro paixão na ponta dos lábios ou você deixa pra me contar aos beijos? -, como foi o seu dia, meu bem?

A sua caixa postal não me respondeu.


Senti uma vontade tão grande de chorar, você não acreditaria se me visse falando com o chaveiro sobre o tempo, como eu queria chorar quando disfarçava dizendo que vai chover no fim de semana. Eu só pensava que você não vai estar aqui e que eu tenho uma festa de criança pra ir, e qual a graça das festas de criança se eu não me lambuzo contigo de algodão doce e volto correndo pra casa pra te alojar no meu peito? Chorei por dentro porque chove em mim sempre que seguro tudo e não desabafo, chove e ninguém vê, chove e só você achava bonito quando o meu sorriso era nublado.

Reparei que metade das coisas que eu aprendi a fazer nesses últimos tempos foram ensinadas por você. E não é que eu dependa de ti pra apreciar um jazz ou um blues em Santa Tereza, mas pra quê eu vou guardar duas taças de vinho se não tem você pra dividir? Eu tento explicar pras pessoas que tem coisas nessa vida que eu só sinto com você. Arrepio, angústia, um choro que fica aqui dentro, um sorriso tapado olhando pro chão, uma coceira do pescoço e rubor, que eu nunca deixo transparecer. Você vem e eu me moldo, me monto, me erro pra você ir corrigindo, sou sonso. Sou um menino descalço correndo na praia de Ipanema com uma pipa nas mãos e o pôr-do-sol de pano de fundo. Eu sou a Lapa inteira exaltando a boemia, você não tem ideia. Eu sou a Vista Chinesa e todos os beijos que já foram vistos por lá, e se eu fosse o Cristo Redentor, iria andar de braço fechado num abraço à tua volta.

Hoje eu esperei você me ligar e você não ligou. Então escrevi um pouco pra ver se eu entendo, se me explico e monto um passo-a-passo pra não precisar sentir contigo, pra sentir sozinho as coisas que só sinto com você.


 

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Escrito por Daniel Bovolento – Via Entre Todas as Coisas

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