As promessas vazias do celular…

Estou pesquisando sobre depressão. E por mais que leia e entenda, acho que um dos grandes vilões que alimentam esta doença é o celular.

Ok, sei de todos os benefícios do aparelho, e eu mesma o utilizo diariamente para muitas atividades. Inclusive para procrastinações.

Também sei dos muitos fatores que levam uma pessoa à depressão. Mas observando a ansiedade alheia e a minha própria, percebo a presença dele em nossos sofrimentos.

Explico:

O celular trouxe uma ideia que não virou prática. A ideia de que os outros, aqueles com os quais gostaríamos de ter contato, estariam ávidos em manter contato conosco também.

Porque em poucos minutos, em poucas letras, de forma prática e rápida, poderíamos, a qualquer momento, demonstrar afetos, saudades, compartilhar experiências, ideias, planejamentos, estar em conexão com o outro.

Tudo isso sem tomar muito o tempo do outro. Nem o nosso. Tudo isso nos mantendo unidos ao outro pela praticidade que é teclar rapidamente e ganhar o dia com isso. Mas…

É um tal de visualizou, mas não respondeu. É um tal de online, mas não leu.

É um tal de “não gosto de celular”, mas o aparelho sempre à mão, sempre aos olhos.

É um tal de “nem entro muito no whats/Messenger/outros tantos”, mas sempre online.

É um tal de “não entendo porque não me responde”, mas no fundo, entendendo. E muito. E sendo machucado com isso.

O celular trouxe a demonstração exata do tanto faz. E as pessoas sofrem com isso.

Sabem, por experiência própria, que quando lemos, mas não respondemos, o motivo é claro: a pessoa não é prioridade. Sabem, por experiência própria, que quando estamos online, mas não lemos as mensagens pendentes, o motivo é óbvio: a pessoa não é prioridade. Sabem. Porque também praticam. Mas dói quando quem é prioridade pra gente, não nos trata como prioridade. Legado do celular. Parabéns para a tecnologia. As relações ficaram mais transparentes assim. Não entende quem não quer. Insiste quem não tem amor-próprio ou tem amor demais.

Lembro quando era adolescente que a forma de comunicação de uma pessoa da periferia, sem telefone em casa, era o orelhão. No caso de paquera, namoro ou amizade sincera, uma das primeiras atitudes era ir até o orelhão mais próximo de casa e anotar o número dele para entregar para a pessoa. E marcar um dia e hora para que ela nos ligasse ou para ligarmos para ela, em caso de outro orelhão do lado de lá da conversa. Mas não era fácil. Geralmente, no dia e hora marcados, chegávamos lá e tinha uma fila imensa. Pessoas com quilos de fichas telefônicas nas mãos, o que significava que cada uma demoraria pelo menos 40 minutos na conversa. Quando finalmente chegava nossa vez, era um milagre a outra pessoa ainda estar esperando do lado de lá. Mas geralmente estava. O coração palpitava, as mãos tremiam, o estômago espremia diante da possibilidade da pessoa estar esperando mesmo com tanta demora.

Era o lado de lá. Difícil, mas possível. As pessoas perseveravam. E isso era sinal de importância. Éramos prioridade. E a ideia futura de um celular, mensagens de texto, ligações em vídeo conferência era algo perfeito. Lindo!

Estaríamos mais ligados àquelas pessoas, graças à tecnologia. Ganharíamos tempo. O assunto poderia ser mais, muito mais. Mais do que o assunto dos outros na fila do orelhão. A facilidade nos aproximaria muito mais. Seria perfeito. E falávamos sobre isso. Sobre o quanto ficaríamos felizes quando este futuro chegasse.

Mas eis que o celular inverteu tudo. Mais tempo, menos interesse. Mais facilidades, menos prioridade. Mais possibilidades, mais ausências.

A Organização Mundial da Saúde alertou no primeiro trimestre deste ano que os casos de depressão cresceram em quase 20% em 10 anos.

Não é mais ou menos o tempo que o celular virou febre de vez?

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Direitos autorais da imagem de capa: stokkete / 123RF Imagens



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