Comportamento

“Ataques nas redes pararam, mas olhares racistas continuam”, diz pai negro de bebê de pele clara

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Marcos e sua família ainda convivem com o preconceito motivado pela diferença da cor de pele do filho.



O racismo ainda é um fator muito presente em nossa sociedade, como mostram diversos casos que vemos todos os dias, seja na televisão ou nas redes sociais.

Algumas dessas demonstrações de preconceito ganham destaque pelas formas absurdas como se manifestam na vida das vítimas. Esse é o caso vivido pelo pastor evangélico Marcos Davis Moreira de Oliveira, 30, e sua esposa, Débora Davis, 25.

Conforme contado por aqui anteriormente, o casal foi atacado nas redes sociais ao postar fotos com o filho recém-nascido, Noah Davis, que tem um tom de pele mais claro que o dos pais. Na época dos primeiros ataques, um dos internautas comentou que não tinha cabimento “pais negros gerarem filho branco”.


Em uma conversa com O Segredo, Marcos disse que esse e diversos outros comentários, que inclusive sugeriam a necessidade de um teste de DNA, porque a criança poderia ser filha do “padeiro”, ferem a integridade e a fidelidade de sua esposa.

Quando a história começou a se popularizar nas redes, Marcos chegou a compartilhar uma nota de repúdio, na qual demonstrava sua indignação ao ver que as pessoas transformaram um momento que deveria ser de alegria para ele e a família em um grande show de preconceito.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/@pastormarcosdavis.

A nota foi criada como uma espécie de “solução temporária”, até porque Marcos não tinha ideia de que a situação ficaria ainda pior. Em setembro, quando ele resolveu postar novamente fotos da família, dessa vez em um ensaio fotográfico, o pesadelo retornou. Uma nova onda de ataques começou, a qual, segundo ele relata, “foi bem pior que a primeira”.


Novamente a questão do teste de DNA foi levantada pelos usuários da rede, bem como uma pessoa que pediu para ambos provarem que eram de fato pais de Noah, já que são pessoas públicas.

Fora da internet, as coisas também não são nada agradáveis para a família. Marcos conta que, em uma noite em que saiu com a família para jantar em um hamburgueria de Goiânia, percebeu que uma mulher e um homem brancos os olhavam com “deboche” e cochichavam.

Em determinado momento, o pastor conseguiu ouvir a palavra “neguinho” dita pelo casal vizinho. Marcos relatou que apenas não foi tirar satisfação porque sua esposa o impediu e porque queria preservar sua família. Revoltado com a proporção do caso e tomando uma posição de combate ao racismo enfrentado pela família, o pastor formalizou um boletim de ocorrência por injúria racial já em setembro.

A injúria racial é crime previsto no artigo 140 do Código Penal. A pena é de reclusão de um a três anos e pagamento de multa. Ela se diferencia do racismo, previsto na Lei nº 7.716/1989, que prevê pena maior e imprescritível, já que se refere à ofensa à dignidade de um indivíduo e não uma discriminação coletiva.


A Polícia Civil de Goiás está investigando o caso. Marcos, até então, já enviou aos investigadores cerca de 30 prints  dos comentários racistas que tem recebido. Infelizmente, os atos de preconceito continuam acontecendo.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/@pastormarcosdavis.

“Ataques nas redes sociais pararam porque agora, se comentam, eu já aviso que vou processar, mas ainda aparecem umas mensagens de pessoas dizendo para eu não postar fotos da família e expor”, afirma Marcos. “Os olhares racistas continuam, no shopping, nos lugares que a gente vai, a gente não tem liberdade de ir e vir”, desabafou. Com todas as provas juntadas nos últimos meses, a esperança do pastor é que os responsáveis sejam punidos.

“Tem gente que ficou falando que o que eu quero é me vitimizar para conseguir dinheiro, alguma indenização; o objetivo não é esse. Tenho amigos que passaram por isso, de sair com o filho na rua e, por ele ser mais claro, as pessoas perguntarem para mãe se ela é a babá”, disse.


Marcos também reafirmou o seu compromisso com a luta, não apenas para a sua família, mas também para outras pessoas. “Eu vou lutar até onde eu puder para que esse constrangimento diminua, para que outras famílias não passem por essa situação, para que o meu caso não dê em nada, porque se não der, é uma forma de as pessoas continuarem achando que internet é uma terra sem lei e que não vai dar em nada desrespeitar alguém ou fazer comentários de cunho racista”, declarou.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/@pastormarcosdavis.

Deixamos, abaixo, uma reflexão compartilhada por Davis em conversa com a nossa equipe: “O racismo individual, institucional e estrutural é muito evidente em nosso país. O racismo nunca foi opinião, nunca foi ponto de vista, muito menos liberdade de expressão, é uma forma de silenciar e desumanizar que a sociedade branca encontrou para excluir nós, negros. Vivemos à face de uma sociedade classista e racista.”

A nossa luta sempre foi por liberdade. Mas liberdade? Sim, palavra tão falada nos últimos tempos. Liberdade para viver, trabalhar, estudar, para irmos aos lugares sem ser confundidos, desprezados ou julgados. Liberdade para ter nossos filhos e vê-los chegar à vida adulta sem o constrangimento e a dor de receber ataques por causa de sua raça, como tem acontecido conosco.”


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