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Até que um dia a gente se dá um voto de liberdade. Largamos toda ambição por uma cabana perto do mar…

Em vez de admitir que estão errados, de criarem uma sociedade mais humana, nos dizem que somos esquizofrênicos, histéricos, bipolares, neuróticos e não aceitam nossa depressão porque ela é improdutiva.

Estamos viciados em remédios, não por problemas físicos, mas emocionais.


Está cada vez mais difícil de se viver neste mundo. Uma gama de valores inventados torna nossa vida mais uma obrigação do que um prazer. Exigem-nos cada vez mais eficiência, caridade sem nos dar nada em troca. Um mundo onde o lucro vale muito mais do que as almas humanas. E quando não é tudo muito material, é tudo muito virtual. Perdemo-nos do real. Já não sabemos mais quem são as pessoas diante de tanta distorção no perfil social.

A bem da verdade, não sabemos mais nem quem somos, então, padecemos no isolamento da alma, no rebaixamento do coração, buscando um sucesso que interessa mais para as aparências, mais para aquilo que pensam sobre nós do que para a nossa própria felicidade. Queremos ser para os outros e é nesse ponto que nos perdemos e os remédios nos acham.

Nessa defasagem, entre aquilo que esperam da gente e os sonhos que carregamos no coração, está a origem de toda a nossa angústia e estresse.

Ambições supérfluas e reais vontades se confundem. Acreditamos que precisamos triunfar, e que o sucesso é essa fórmula pronta que devemos seguir como se fossemos todos iguais, como se a felicidade não tivesse significado diferente para cada um.


Então, nessa disfunção começa o desespero. Perdemos o sono porque nos parece impossível alcançar uma glória forjada. Viramos de um lado para o outro do travesseiro pensando em como comprar tal carro, enrolamo-nos nos lençóis, sonhando com o corpo perfeito e diante de tanta coisa que ainda temos que conquistar, cedemos à tentação de tomar um remédio para dormir. Porque, afinal, o dia seguinte está repleto de compromissos que nos estressam mais do que nos fazem felizes.

Tomamos o café forte para ter energia e saímos às ruas cruzando com uma sociedade que vive o mesmo dilema imaginário de um êxito vazio. Tropeçamos uns nos outros, esbarramos cegos pelo celular. A ponto de explodir, nós nos debatemos, insultamos, brigamos carregados pelo estresse de metas pessoais e profissionais que nos incutem com a finalidade de produzirmos cada vez mais e mais. Exigem que entreguemos nossa vida a um sistema que não tem razão nenhuma de ser, porque corrompe nosso espírito em troca de alguns trocados. Então, os nervos inflamam, o coração entre uma taquicardia e um calmante, já na segunda-feira, cai bem para segurar todo esse estresse de nunca alcançar uma utopia de vida que se criou em função do consumo desordenado.

E nossos sonhos ficam cada vez mais caros, porque os preços sobem e o salário desvaloriza, aumentando o lucro que nos confunde quando vemos tragédias deslizando aos nossos pés, queimando o fogo da dor em nossos corações, inundando a nossa alma de ansiedade por pura negligência humana em nome do dinheiro.


Então, olhamos para os lados e não vemos amor nas ruas. E, por isso, nós nos entregamos a essa necessidade tosca de aprovação. Queremos o sucesso a todo custo. Buscamos aplausos, admiração para compensar um amor que nunca tivemos.

Desejamos ser os mais desejados. Almejamos ser aceitos, ansiamos um afeto que anda escasso nesse mundo. Então, entramos em desespero, temos ataques de pânico, que são, na verdade, pedidos de socorro, de amor, de proteção. Entretanto, o que eles nos dão, são remédios. Ansiolíticos, que queimam nosso cérebro, mas nos fazem respirar novamente nesse mar de valores superficiais.

E chega um ponto que entendemos que não somos humanamente capazes de viver essa vida. Que somos engrenagens de um sistema do qual também somos as próprias vítimas. Então, um dia, a gente acorda e não consegue levantar da cama. Cansa dessa batalha que nunca acaba, pois é exatamente ela o combustível mantenedor desse sistema injusto. E tudo que queremos é a receita do antidepressivo. Porque ninguém mais se olha. Estão todos tão mergulhados em suas próprias frustrações que ninguém escuta, só fala e fala e quer ser ouvido ser ouvir. Nós nos perdemos na falta de afeto, nossa autoestima se estilhaça pela eterna sensação de fracasso que depois de nos sugar toda a energia, jogando-nos ao chão, aos pedaços, enquanto o sistema continua com aqueles que sabem administrar e tolerar melhor seus remédios tarja preta.

E, em vez de admitir que estão errados, de criarem uma sociedade mais humana, dizem-nos que somos esquizofrênicos, histéricos, bipolares, neuróticos, mas não aceitam nossa depressão, porque ela é improdutiva. Corremos para casa em busca de compreensão, de colo, mas ninguém nos vê, pois estão todos escravizados pelos seus próprias remédios.

Até que um dia a gente se dá um voto de liberdade. Largamos toda ambição por uma cabana perto do mar para viver de verdade em vez de meramente sobreviver.

Eles nos chamam de loucos. Só que a gente deita na cama sorrindo porque entende que loucos, mesmo, são eles. E, então, dormimos cedo com o melhor sonífero que pode haver nessa vida: uma alma em paz.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: 123rf / nataliaderiabina.





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