A ilusão de ótica conhecida como “buraco em expansão” intriga pesquisadores por não ser percebida por cerca de 20% das pessoas

Por que certos indivíduos conseguem notar ilusões visuais enquanto outros não? Essa é a questão que pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, buscam responder.
Para isso, eles utilizaram uma das imagens mais conhecidas: a do chamado “buraco em expansão”.
De acordo com psicólogos envolvidos no estudo, cerca de 20% das pessoas não experimentam o efeito completo dessa ilusão, e os motivos ainda não são totalmente compreendidos.
Para testar a percepção, os participantes foram convidados a observar a figura durante alguns segundos, registrando suas impressões sobre o fenômeno.
A ilusão é formada por um fundo branco preenchido com pontos pretos e, no centro, um borrão negro que se assemelha a um buraco.
Quando o observador fixa o olhar nessa área central, a mancha escura dá a impressão de se alargar e engolir o espaço ao redor. Essa sensação é chamada de “fluxo óptico”, algo que o cérebro interpreta como movimento, mesmo sem que ele exista de fato.
Segundo os pesquisadores noruegueses, o efeito é tão convincente que faz com que as pupilas de muitas pessoas se dilatem, como se realmente estivessem entrando em um ambiente escuro.
Essa reação é automática e inconsciente, mostrando que o sistema visual humano reage até mesmo a estímulos ilusórios.

Direitos autorais: Divulgação / Universidade de Oslo
Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Human Neuroscience, uma das principais publicações internacionais na área de neurociência. O experimento também testou versões em que o “buraco” aparecia colorido.
Nesses casos, as pupilas reagiam de maneira inversa: contraíam-se, simulando uma adaptação a um ambiente mais iluminado.
“O ‘buraco em expansão’ é uma ilusão altamente dinâmica: a mancha circular ou gradiente de sombra do buraco negro central evoca uma impressão marcante de fluxo óptico, como se o observador estivesse se dirigindo para um buraco ou túnel”, afirmou Bruno Laeng, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Oslo e autor principal do estudo.
Para avaliar a intensidade do fenômeno, a equipe apresentou a imagem a 50 pessoas com visão considerada normal.
Os participantes relataram o grau em que percebiam a expansão, enquanto os cientistas analisavam tanto os movimentos oculares quanto as reações involuntárias das pupilas usando equipamentos de rastreamento visual de alta precisão.
Os resultados mostraram que nem todos conseguiam captar a ilusão. Aproximadamente 14% não notaram nenhuma expansão quando o buraco era preto, e 20% não perceberam o efeito em versões coloridas.
Esses números reforçam a ideia de que fatores individuais, como variações neurológicas, atenção e até mesmo diferenças culturais, podem influenciar na percepção visual.
Além disso, foi constatado que, quanto maior a intensidade relatada pelos voluntários, mais visível era a variação no diâmetro das pupilas. Já entre os que não perceberam a expansão, não ocorreu alteração fisiológica significativa.
Esse dado sugere que a ilusão ativa mecanismos cerebrais ligados não apenas à visão, mas também a processos automáticos do corpo.

Direitos autorais: Reprodução / Canva
De acordo com os pesquisadores, os dados coletados oferecem novos insights sobre como o sistema visual humano responde a estímulos ilusórios. A pupila, muitas vezes associada apenas a reações a estímulos luminosos, mostrou-se sensível também a sinais de percepção subjetiva.
Isso abre espaço para investigações futuras sobre como o cérebro distingue realidade de ilusão.
“Nossos resultados mostram que o reflexo de dilatação ou contração das pupilas não é um mecanismo de circuito fechado, como uma fotocélula abrindo uma porta, imune a qualquer outra informação além da quantidade real de luz que estimula o fotorreceptor. Em vez disso, o olho se ajusta à luz percebida e até mesmo imaginada, não apenas à energia física. Estudos futuros podem revelar outros tipos de mudanças fisiológicas ou corporais que podem ‘esclarecer’ o funcionamento das ilusões”, concluiu Laeng.
O “buraco em expansão” não é a única ilusão a provocar reações intensas. Há outras igualmente conhecidas no campo da psicologia visual. Um exemplo é a ilusão de Müller-Lyer, na qual duas linhas de igual comprimento parecem diferentes por conta das setas posicionadas em suas extremidades.
Outra é a ilusão de Ebbinghaus, onde dois círculos idênticos parecem variar de tamanho dependendo dos círculos ao redor.
Essas ilusões mostram que nosso cérebro nem sempre interpreta a realidade de maneira objetiva. Ele utiliza pistas contextuais, experiências anteriores e expectativas para formar a percepção do que vemos. Em muitos casos, isso nos ajuda a reagir rapidamente ao ambiente.
Mas também pode nos enganar em situações específicas, como no caso das ilusões de ótica.
Embora possam parecer apenas curiosidades visuais, ilusões como o “buraco em expansão” têm aplicações práticas importantes. Elas ajudam cientistas a compreender melhor o funcionamento da visão e da cognição humana.
Além disso, pesquisas desse tipo podem contribuir para o diagnóstico e tratamento de distúrbios visuais e neurológicos, como a enxaqueca com aura ou doenças que afetam a percepção espacial.
Outro ponto relevante é a aplicação em áreas tecnológicas. Estudos sobre ilusões visuais já foram utilizados em design gráfico, publicidade e até no desenvolvimento de realidade virtual, onde a manipulação da percepção é essencial para criar experiências mais imersivas.

Direitos autorais: Reprodução / Canva
Apesar dos avanços, os cientistas ainda não sabem explicar com exatidão por que alguns cérebros são mais suscetíveis a ilusões do que outros.
Fatores como genética, idade, atenção, fadiga ocular e até mesmo diferenças individuais na estrutura do córtex visual podem estar relacionados. No entanto, mais estudos serão necessários para desvendar esse mistério.
O estudo norueguês reforça que ilusões de ótica não são apenas truques de entretenimento, mas ferramentas científicas valiosas para compreender os limites da percepção humana.
Enquanto parte das pessoas continua fascinada pela expansão ilusória do buraco, outras permanecem imunes a ela, lembrando-nos de que cada cérebro enxerga o mundo de forma única.
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