Brilho eterno de uma mente sem lembrança e a inevitável dor de amar

Apagar alguém da memória não significa eliminar a química existente com a mesma. Mesmo que fosse possível retirar a pessoa amada de nossas lembranças, ao conhecê-la novamente, em outro lugar e circunstância, provavelmente o amor começaria tudo de novo com pequenas diferenças, que nada alterariam o principal: algumas pessoas apresentam afinidades que duram a vida inteira, apesar dos conflitos existentes em qualquer relação.



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Brilho eterno de uma mente sem lembrança retoma os temas do tempo e da memória, exaustivamente trabalhados pelo cineasta francês Alan Resnais, de Ano passado em Marienbad e Hiroshima, mon amour em um estilo mais colorido.

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O decorrer do tempo e as limitações da memória criam armadilhas que fazem a vida vivida e a lembrada ou simplesmente imaginada se embolarem, tema caro ao cinema moderno, em que a subjetividade e o mundo interior dos personagens com suas dicotomias importa tanto ou até mais do que a realidade objetiva.

O filósofo francês Gilles Deleuze considerou o cinema tema tão importante nas suas pesquisas que chegou a identificar os filmes como objetos e não como signos, isto é, representações. Para Deleuze o cinema era a própria vida, tema considerado polêmico e talvez por isso mesmo tão fascinante.

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Com imagens belas e oníricas, o filme mergulha no paradoxo das múltiplas possibilidades da vida versus alguns fatos e pessoas que determinam nossas escolhas e provocam nossos sentimentos. Apagar alguém da memória não significa eliminar a química existente com a mesma. Mesmo que fosse possível retirar a pessoa amada de nossas lembranças, ao conhecê-la novamente, em outro lugar e circunstância, provavelmente o amor começaria tudo de novo com pequenas diferenças, que nada alterariam o principal: algumas pessoas apresentam afinidades que duram a vida inteira, apesar dos conflitos existentes em qualquer relação.


Amar significa digladiar com o conflito, vencendo no dia a dia as incompatibilidades e jogando luz sobre o lado rico da relação. Quem opta pelo amor precisa construir pontes e não muros.

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Mesclando passado e presente, vida real e imaginada, boa parte da trama se desenrola na mente do personagem protagonista, que deseja simultaneamente esquecer e lembrar da mulher amada. Um elemento que merece destaque por sua contemporaneidade é a necessidade de exterminar a dor emocional rapidamente. Por medo de enfrentar o luto natural que decorre do fim de qualquer relação amorosa significativa, muitas pessoas optam por uma forma artificial de pular uma dolorosa, porém necessária fase da vida. Extremamente onírico, contemporâneo e visualmente criativo.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança é simultaneamente uma aula de cinema no sentido não ortodoxo da palavra e uma profunda e dilacerante viagem ao nosso mundo interior, a tudo aquilo que precisamos ou desejamos esquecer para sobrevivermos à dor de existir.

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