Brilho eterno de uma mente sem lembranças e tudo o que queremos esquecer…

Há quem diga que a melhor forma de se viver é concentrar-se totalmente e plenamente no presente. Mas, tentar se afastar do passado, o fortalece. Se nos escondermos, ele cresce. Então, não seria melhor simplesmente suportá-lo, encará-lo e, consequentemente aceitar que o que temos de mais precioso são os nossos aprendizados e que, definitivamente, ignorar as experiências ruins que tivemos para não doer é uma ideia um tanto quanto equivocada?



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É extremamente comum que, muitas vezes, acabemos fugindo de fatos que aconteceram porque, teoricamente, isso nos trará muita dor. Mas, o que nos esquecemos – ou talvez não saibamos ao certo como lidar com isso -, é que as nossas escolhas fazem de nós exatamente o que somos hoje e ignorá-las, ao invés de nos ajudar, pode permitir que cometamos o mesmo erro duas vezes e, pior, que ela passe despercebida e não nos fortaleça psicologicamente e sentimentalmente em nada.

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Infelizmente, é o que Clementine (Kate Winslet) faz no filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Ao invés de aprender com as encruzilhadas do seu relacionamento com Joel (Jim Carrey), a jovem decide apagá-lo de sua memória e, junto com as lembranças (boas e ruins) vão-se as experiências e tudo o que viveram até ali.

Concordo que, prender-se ao passado é irrelevante e geram, em sua maioria, perda de tempo. Porém, isso não significa que devemos olhar para trás com desdém e ignorar o que um dia fez parte de nossas vidas. Vamos deixar claro, não estamos falando aqui de alimentar o pretérito e abastecer-se do que não nos leva a diante. Refiro-me ao que nos molda, ao que nos constrói e diversifica a nossa personalidade.

Ao descobrir que Clementine vai até uma clínica e passa por vários processos afim de esquecê-lo, Joel decide fazer o mesmo mas, durante o tratamento, muda de ideia. Um pouco tarde demais, Joel percebe que preferia conviver com a hipótese de Clementine não o reconhecer e ele reconquista-lá do que simplesmente não se recordar de tudo o que passaram juntos e dar o caso por encerrado. Como jamais, nunca, em aspecto algum, eles tivessem se conhecido.


Ele quieto, isolado, sorriso frouxo. Ela intensa, extrovertida e sincera. O casal protagonista dessa comédia romântica dá vida ao roteiro de Charlie Kufman e prende nossa atenção do começo ao fim através da linha temporal. Ele 8, ela 80. Tivessem qualquer aparência que fosse, ainda assim conseguiriam nos preencher e ocupar nossa mente com uma história que rodeia uma única questão: abençoados os que esquecem? Não. Viver a dor faz com que mais tarde, a gente entenda o real peso da felicidade e, assim, nos sentimos vivos, com tantos altos e baixos, como a vida deve ser.

A verdade é que às vezes repetimos e repetimos o passado na esperança de que no fim, tudo seja diferente. Estamos sempre desejando – ainda que inconscientemente -, controlar e mudar o que já aconteceu. É como se nos negássemos a aceitar o que houve e, assim, ficamos livres do sofrimento que isso nos causou. Entretanto, que a dúvida seja dita: estaria o nosso caminho já pré-destinado e, o que quer que façamos para mudar isso, seremos levados novamente ao ponto inicial? Talvez. O longa defende a hipótese de que independente de qualquer atitude que a gente tenha na vida, já existe algo (e alguém) nos esperando.

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“Deixe-me ficar com esta lembrança… por favor, só essa.”

“Muitos caras acham que eu sou um conceito e que eu os completo, ou que eu vou mudar a vida deles. Mas eu sou só um garota ferrada procurando pela minha paz de espírito.” Essa frase, dita por Clementina à Joel nos faz repensar mais um aspecto de onde podemos ou não tirar algum ensinamento. Até que ponto devemos nos entregar a um relacionamento? O filme no mostra a possibilidade de sermos aceitos exatamente como somos onde a única arma é o que sentimos.

Talvez, as coisas deem certo. Talvez, nada funcione. Mas há uma certeza: é irrelevante tentar apagar o que ficou gravado no coração. É necessário apenas que tenhamos consciência de que se um relacionamento chega ao fim, não significa que não deu certo. Deu por um determinado tempo, mas desgastou-se e, antes de jogá-lo fora tente consertá-lo. E, por fim e no fim, se realmente não funcionar, então dê continuidade na vida, mas sem guardar ressentimentos. Mágoa e rancor não nos fazem dar um passo em direção ao futuro.

Admiro Clementina, admiro Joel. Enfim, talvez seja verdade que os opostos se atraem e, que independente do que ficará como recordação, ainda é o amor que move as nossas vidas. Então, se encontrarmos um único motivo que nos faça sentir gratidão nesse emaranhado de sentimentos, tudo terá valido a pena.

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