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Caminhão arqueado: como moda polêmica provocou tragédia entre pai e filho

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Gerson bateu na traseira do caminhão do próprio pai; o acidente foi fatal para ele e a esposa Patrícia.

O caminhão arqueado é moda entre os caminhoneiros do Brasil, principalmente os mais jovens. Para quem não entende a fundo a cultura das estradas, basta saber que é quando o condutor rebaixa a frente e suspende a traseira de seu veículo, deixando a parte de trás mais elevada do que o permitido pela legislação de trânsito.

A prática serve para deixar os caminhões com um estilo mais parecido com os que disputam campeonatos truck, e a mudança estética também pode fazer com que transportem carga superior à permitida, já que a suspensão da traseira passa a sensação de que o veículo não está tão pesado. O investimento dos condutores é alto, já que colocam calços sob a mola ou adicionam molas ao eixo traseiro do caminhão.

Mas a moda é extremamente perigosa, e no último dia 13 de janeiro, quatro caminhões arqueados se envolveram em um engavetamento na BR-116, no Paraná. De acordo com reportagem do UOL Carros, Gerson Mattos, de 39 anos, e sua esposa Patrícia Abreu, de 34, faleceram no local.

A história adquire ares ainda mais trágicos porque Gerson acabou batendo na traseira do veículo do próprio pai Jetro Mattos, entrando embaixo do caminhão. Testemunhas afirmam que um carro provocou o engavetamento quando reduziu drasticamente a velocidade, obrigando duas carretas e dois caminhões a frearem bruscamente. Jetro era o penúltimo da fila, seguido por seu filho, que não conseguiu frear a tempo.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/ @gerson.emp.02

Pai & Filho

Conhecidos nas estradas como Pai & Filho, os condutores gostavam da profissão e usavam suas redes sociais para compartilhar sua rotina, as modificações que faziam nos caminhões, além das impressões das estradas e a vida pessoal. Os dois tinham perfis próprios no Instagram, mas também alimentavam uma conta juntos com conteúdo sobre suas viagens.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/ @jetromattos

Em uma das publicações de Jetro, ele aparece em um vídeo mostrando a altura da traseira de seu caminhão, que está tão alta que ele consegue ficar sob ela sem tocar a cabeça na parte de baixo do veículo. Gerson também era adepto do caminhão arqueado. Pai e filho dirigiam veículos alterados dessa maneira quando se envolveram no acidente.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/ @jetromattos

Legislação

Desde 2014, a fim de reduzir o número de acidentes fatais, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) alterou o Código Brasileiro de Trânsito (CTB), passando a permitir alteração nos eixos traseiros dos caminhões de apenas dois graus no chassi. A suspensão direita também não pode ser modificada, sendo permitido apenas instalar sistema de tração adicional e incluir ou retirar eixos autodirecionais, direcionais ou auxiliares.

O CTB considera infração grave conduzir qualquer veículo com características alteradas sem autorização para tal. O motorista recebe multa de R$ 195,23, cinco pontos na CNH e o veículo fica retido até sua regularização. Mesmo assim, especialistas e condutores mais experientes afirmam que a punição é leve, já que, na maioria das vezes, os acidentes são fatais.

A prática de arquear as traseiras dos caminhões aumenta as chances de provocar o que médicos e especialistas chamam de “efeito guilhotina”, que é quando os motoristas que batem na traseira acabam decapitados por entrar embaixo do veículo modificado. Os ocupantes da frente dos carros de passeio são as principais vítimas desse tipo de acidente.

Mesmo em um caminhão, Gerson e sua esposa também sofreram um fatal acidente, tornando-se vítimas de uma prática considerada perigosa demais para as estradas. Além de fazer com que os condutores de trás entrem na traseira do caminhão, engenheiros de trânsito explicam que esse tipo de modificação ainda pode fazer com que os próprios motoristas percam o controle dos veículos, especialmente em curvas.

A Polícia Federal fez uma fórmula simples para que os caminhoneiros saibam qual o total da elevação traseira que seus veículos podem atingir, respeitando o tamanho de cada um, por isso não existe um padrão de tamanho para eles. Os motoristas precisam, primeiro, medir a altura final da longarina (X), depois devem medir a altura da longarina a uma distância de 1,5 metro da altura X (Y), depois, basta subtrair Y de X. Se o caminhão estiver dentro dos padrões, o resultado deve ser menor que 3,5 centímetros.

Gerson e Patrícia, casados havia 17 anos, deixam dois filhos, de 14 e 17 anos.

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