Caminho estrelado: uma homenagem a Manoel de Barros…



Manoel nunca andava só. Estava sempre acompanhado das miudezas divinas e dos pormenores da natureza.

“Tem um desfiladeiro de coisas tortas atravancando o caminho que sempre faço”, esbravejei. Ele me olhou com seus olhos de paciência. Manoel sempre encontrava outro caminho. Um dia ele me disse sobre um palhaço: “arrastava na rua por uma corda uma estrela suja. Vinha pingando oceano!”*.

Fiquei horas olhando o mar e o céu. Já era noite e as estrelas brilhavam feito um painel de ilusões.

Pensei no caminho que o palhaço fez para chegar até os brilhantes do sereno. Pensei no vento frio fazendo correnteza contra seu corpo engraçado. Pensei nas durezas para descolar a estrela como tirar brinco de orelha. Pensei no palhaço correndo em voo lento com uma corda na mão carregando sua poesia pontiaguda.

Estrela suja de pó do cosmos chegou até a rua. Uma ruazinha deserta sem coisa nenhuma. Só umas casinhas de humildade. E ele arrastando sua estrela por uma corda, orgulhoso que só vendo.

Pensei que no caminho do céu até o chão, o palhaço mergulhou na profundidade do mar que era para ver se limpava a estrela. E saiu de lá com ela pingando. Pingando oceano.



Manoel sabia tanto das coisas que meu caminho de sempre já nem fazia mais sentido.

Era preciso caminho novo que tivesse uma estrela ou outra para me fazer voar até o céu, mergulhar no oceano e voltar para a rua, pisando em poças brilhantes, uns rastros que a felicidade costuma deixar por onde passa.

*Trechos do poema “O Palhaço”, de Manoel de Barros em seu livro “Matéria de Poesia.”






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