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Casa de vó, de bisa, de afeto

casa de vó

Semana passada vovó ligou: – Vem jantar aqui, fio? Ela pergunta para o neto, meu marido.



Já não tenho mais avós, então vou me apossando da avó dos outros, sabe? Bisa dos meus meninos, sinto-me um pouco neta também.

– Vamos, Nane? Ele pergunta.

– Vai ter janta? Eu respondo.


A Bisa é forte, falante e ativa. Rainha do crochê e do tricô.

É a artista dos coletinhos que aquecem meus meninos no inverno.

Faz polenta com fubá lá da venda e, que me perdoem as milharina, mas polenta boa é de fubá.

Lá vai ela girando aquela colher de pau. O frango é caipira. Nem sou muito fã, confesso.


Mas, ela tem o dom e o dela é bom.

Sei lá, coisa de mão, coisa de mãe. Coisa de vó.

Anos atrás, cismei que tinha que aprender tricô com ela. Eita, bicha braba!

– Não! Tem que passar a agulha por trás!


Ela arranca a agulha da minha mão. Tentei, respirei, e quase levei uma agulhada na cabeça

Deixei para ela. Isso tinha que ser matéria da faculdade, doutor. Penso, eu.

Ela tem aquela sabedoria do tempo, sabe? Já não faz tipo e vai falando sem cerimônia

E, enquanto dissolve o fubá na água, ela me mostra uma travessa que ganhou no casamento dela em 1955.


Pergunto se um dia ela pode me dar e ela diz: – Não. Essa eu vou dar para a Marcia. Filha dela. É justo, kkkk.

– Mas eu lhe dou essa colher de pau! Ela ri e levanta a colher cheia de polenta.

Sinto-me lisonjeada.

Canta aquelas músicas que aprendeu quando era menina e ri de si mesma quando esquece a letra.


Os meninos passam e ela vai oferecendo banana, chocolate e pastelzinho frito antes da “janta”.

Ela pode, tem licença poética.

Mostra-me a caixa de fotos de seu casamento e ri me apontando todos que já se foram:

– Ah… essa morreu.


– Morreu nova, credo!

Ela ri e se benze.

– Olha a Creeeeeusa! Morreu também, ano passado.

– Essa morreu véia. E feia.


– Tá uma “morreção” de gente, né fia? Ela me pergunta.

– Vixe, até quem nunca morreu deu para morrer agora! Respondo.

Gargalhamos juntas.

E eu vou lavando a louça. E ela tomando caipirinha. E o marido pegando água no filtro de barro.


E as crianças comendo pastel. E chocolate. E polenta. E meu coração se enche de gratidão…

Não tive avó viva, mas sinto-me uma neta feliz!


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: bordyug / 123RF Imagens

Deus nos concede muito. Tudo é interceptado pelo alto. é preciso mais calma, ponderação e silêncio

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