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Chico Buarque exclui ‘Com açúcar, com afeto’ do repertório: “As feministas têm razão”

Chico Buarque exclui Com acucar com afeto do repertorio

Chico Buarque não pretende mais cantar “Com açúcar, com afeto”, um dos maiores clássicos de seu repertório. A revelação foi feita no terceiro episódio da série documental “O canto livre de Nara Leão”, dirigido por Renato Terra para a Globoplay. No documentário, Chico explica que a música foi composta a pedido de Nara, em 1967.

“Ela me pediu a música, ela me encomendou essa música, ela falou ‘Eu quero agora uma música de mulher sofredora’. E deu exemplos de canções do Assis Valente, Ary Barroso, aqueles sambas da antiga, onde os maridos saíam para a gandaia e as mulheres ficavam em casa sofrendo, tipo “Amélia”, aquela coisa. Ela encomendou e eu fiz”, explica o compositor.

Ainda no filme, Chico diz que “gostou de fazer” a canção e destaca que na época não havia esse tipo de interpretação crítica aquela personagem feminina — mas defende a mudança de visão e, por isso, decidiu tirar a música de seu repertório.

“É justo que haja, as feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas, mas elas precisam compreender que naquela época não existia, não passava pela cabeça da gente que isso era uma opressão, que a mulher não precisa ser tratada assim. Elas têm razão. Eu não vou cantar ‘Com açúcar, com afeto’ mais e, se a Nara estivesse aqui, ela não cantaria, certamente.”

O carioca Luiz Antonio Simas, escritor, historiador, compositor e fãs de Chico Buarque, problematizou a notícia em um post no Twitter, ressaltando que a canção já não fazia parte do repertório de Chico. “Eu devo ter ido a todos os shows do Chico Buarque desde que me conheço por gente e ele nunca cantou “Com açúcar, com afeto”. Ele, com todo respeito de fã, declarou que não vai mais cantar uma música que já não canta”, escreveu Simas.

A última vez que Chico cantou “Com açúcar, com afeto” em um show de carreira foi em 1975, com Maria Bethânia. Por meio de sua assessoria, o cantor disse que “não comentaria seu comentário” na série.

Em 2017, Chico se viu em uma polêmica pela letra de “Tua cantiga”, lançada naquele ano e parte do álbum “Caravanas”. Ele recebeu críticas especialmente por causa dos versos “Quando teu coração suplicar/Ou quando teu capricho exigir/Largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”. A ideia da família abandonada não foi bem recebida. Na época, sem mencionar o tema, mas a harmonia e as rimas, Caetano Veloso elogiou a faixa: “ao ouvi-la, fiquei tomado”.

A cantora Teresa Cristina diz compreender a atitude de Chico Buarque, embora não veja problemas na letra da canção.

— Desde criança escuto dizer que o Chico é o compositor que mais entende as mulheres, que tem o olhar mais delicado e atento para as nossas questões. Eu entendo a postura dele, mas essa música nunca me incomodou. Não acho que seja uma romantização de uma relação abusiva, mas a denúncia de uma situação que acontece até hoje — ressalta Teresa. — Ter esse tipo de reflexão sendo feita pelo próprio autor da canção mostra um avanço nas nossas posições, que a voz da mulher tem cada vez mais alcance. E demonstra também a singularidade de um dos maiores compositores do Brasil.

Também fã de Chico, o cantor e compositor Léo Jaime acredita que a música retrata um tempo em que a abnegação da mulher era considerada uma prova de amor.

— Acho que as coisas que não têm mais a ver com o discurso atual têm que ser deixadas para lá mesmo. É um documento de uma sociedade machista, e a gente tem que lutar contra isso — reforça o cantor, lembrando o tempo em que os Miquinhos Amestrados cantavam o medley com versões politicamente incorretas para clássicos como “Yellow river” e “Namoradinha de um amigo meu”. — Aquilo era de domínio público, típica quinta série. Nunca foi do meu repertório, e imagino que os Miquinhos também não cantem mais. Uma piada, né? Tem graça uma vez.

Rodrigo Faour, historiador de música brasileira, lembra que “Chico tem o direito de cantar o que ele quiser, mas há as músicas que são contextualizadas e músicas com personagem”.

— O fato de você cantar um personagem que vive daquele jeito não quer dizer que você apoie aquilo. Na época em que essa música foi feita, Chico e Nara já não apoiavam aquilo. E ele tem várias com contexto assim, o que não significa que ele ache certo. Se fosse entrar nessa de não ter contextos e personagens com valores éticos e morais diferentes, não poderia mais ter vilão em cinema, em novela, porque a arte não significa apologia daquilo — diz o autor de “História da música popular brasileira: sem preconceitos”. —Se a arte não pode subverter e fazer uma crítica de uma situação, vira um panfleto generalizado, a gente então vai cantar só música educativa. A arte existe para isso: subverter.

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