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Comigo-ninguém-pode!

Reconheço: por um longo tempo, tive mesmo a cara de: “comigo-ninguém-pode”.



Comigo-ninguém-pode é o nome de uma planta. Bonita e venenosa. Não tenho cara de planta, não sou bonita, e nem venenosa. Apenas portava uma fisionomia, que impunha distância.

Falo do passado, pois, no presente, já não é tanto. A idade amacia e conserta algumas linhas duras das feições. Os moldes, que a natureza nos traz, não têm explicações. Talvez seja herança genética, ou sequela do endurecimento que minha alma teve, em algum momento, e… plaft!  Como uma daquelas tortas dos filmes de comédia: uma foi atirada no meu rosto! Com massa de concreto. Na hora, não doeu nada, e nem percebi a mudança. No espelho, minha cara parecia ser a de sempre. Apenas um pouco mais séria, e séria era minha situação, na época; portanto, a cara me calhava.

A descoberta veio com o tempo, ouvindo, aqui e ali, revelações pela metade. De amigos recentes; vizinha sisuda, pedreiros, e até evangélicos julgadores, analisando minha carência de salvação. Consegui manter-me firme, sem pedir maior clareza, e sem esticar o assunto. Não quis piorar as coisas, fermentando a confissão, e aceitei essa espécie de “perdoa meu erro de julgamento”. Lamentavelmente, nenhum deles pronunciou essas poucas palavras.


A maioria das pessoas acredita ser humilhante um pedido de perdão, e que só devem fazê-lo quando cometem uma grande injustiça. Uma espécie de erro, à guisa de um tsunami, destruindo a vida de alguém. Aceitei, sem questionar, as justificativas que culpavam — entre aspas —  a desagradabilidade de minha face. E, em silêncio, extrai das declarações o pedido de desculpas, que elas não foram capazes de fazer.

Primo pela verdade, mas alguma pode ser evitada, para não magoar alguém. Principalmente, alguém de nossa estima. Ser sincera não me dá o direito de ser estúpida, e muitas pessoas, que gritam ser verdadeiras, exacerbam na grosseria. Só o tempo, com nosso acervo de experiências, nos ensina a ter esse freio na língua. As confissões que me deixaram descontentes — e, aqui, eu abro um parêntese, para dizer que nenhuma aparência deve ser levada em consideração para formar o caráter de alguém — já tinham sido ditas. Verbalizadas, em vez de mastigadas e engolidas. E nada que eu dissesse iria apagá-las.

Há momentos em que calar é lucro, e esse era um. Elas deveriam ter se calado. Deveriam ter evitado as tais revelações desnecessárias, que ao invés de estreitar os laços, ainda frágeis, de nossas recentes amizades, romperam-nos. E, por consequência, congelaram minha confiança, e minha espontaneidade. Não posso confiar em alguém que julga as pessoas baseadas pela aparência. E, quando não confio, me fecho em copas. Amizade, sem isso, não é amizade. Aliás, não é nada.


Por algum tempo, a chateação me serviu para tomar umas providências. Passei a exercitar meu rosto, mudando o jeito de olhar para as pessoas. Superei os limites da minha timidez, e diminui os espaços. Não pude fazer muitos milagres.

Se fico séria, ou estou brava, a placa escrita “comigo- ninguém-pode” surge. Automaticamente!

E automático sempre foi o susto das pessoas, pulando de banda…


Sorrir, me deixa um pouco mais simpática. Mas não vou sorrir vinte e quatro horas por dia, incluindo quando durmo. Daí, chamar-me-iam de para-quedas, ou idiota… e isso é muito pior do que ser chamada de cara de repolho, ou qualquer outra planta estranha.

Estarão sempre buscando, na face, algo que nos rotule. Tenho, por aqui, uma boa porção de defeitos, mas abestada nunca fui. Prefiro continuar com essa cara a ter cara de boba. A boba está sempre recebendo convites, sorrisos-doces-de-mãe, e afagos na mão. Entretanto, pelas costas, é pura comiseração: “coitadinha, como é bobinha!…” Eu até suportaria ser chamada de bobinha, mas, de coitadinha, nunquinha da silva.

Não tem coisa pior do que ser chamada de coitadinha. É tapa na cara! Xinga grossa. Voadora, rasteira, e chave de pescoço. Tem quem goste e recebe isso como uma espécie de carinho, desconhecendo que provocar pena não é provocar admiração. “Coitadinha”, é o mesmo que viver na esfera de uma minhoca sem ideais.


A cara de “comigo-ninguém-pode”, de certa forma, me resguardou dos aproveitadores.

Se tivessem percebido que, por dentro, “comigo, quase tudo pode”, minha história poderia ter sido bem pior. Meu coração seria, hoje, uma montanha de mágoas. E, como gosto de buscar sentido em qualquer verso, lembrei-me de uns — bobinhos — que usávamos na mocidade:

“O Amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas.”


“Coitadinho, é filho de rato, que nasce pelado.”

E me inspirei: A face da mágoa é como uma flor murcha. Inútil tentar avivar com plástica, água e bucha.

Que Deus me livre dessa cara de flor semimorta. Prefiro ter uma cara de porta!


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Direitos autorais da imagem: sirinapa / 123RF Imagens


Faça essas afirmações em todas as suas manhãs e eleve sua vibração!

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