“como eu seria feliz, se eu fosse feliz!”

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Uma frase atribuída a Woody Allen: “Como eu seria feliz, se eu fosse feliz!”



Será um segundo de vida que não queremos que acabe? Uma boa maneira de reconhecer um momento feliz é quando não queremos que acabe ou não temos dúvidas de que valeu muito a pena e queremos repetir.

Divagando em meus pensamentos, reconheci a felicidade como uma ocorrência transitória – não vem sempre e também não fica para sempre. A realidade é que estamos em busca da felicidade, como se ela fosse eterna, permanente e percebemos que somente a transitoriedade é permanente, enquanto a felicidade é eventual.

Na vida, seguimos desejando aquilo que ainda não temos, aquele emprego dos sonhos, próspera conta bancária, o carro do ano que ainda nem foi lançado ou quem sabe um amor recíproco arrebatador.


O pensamento é recorrente: quando eu conseguir tal coisa, serei feliz! Seguimos desejando e, quando conseguimos, acostumamo-nos, adaptamo-nos e passamos a desejar outras coisas, e assim, vida que segue.

Platão, há mais de 2.500 anos, e Schopenhauer, com a teoria do pêndulo do desejo, já diziam que o ser humano vive desejando algo.

Schopenhauer deixou teorias esparsas sobre felicidade:


Assim como o caminho que percorremos fisicamente sobre a terra é apenas uma linha e não uma superfície, na vida, quando queremos agarrar e possuir algo, devemos deixar muitas coisas à direita e à esquerda, e renunciar a diversas outras. E, se não soubermos lidar com tal fato e, ao contrário, tentarmos pegar tudo o que nos atrai pelo caminho, como crianças na feira, é porque temos a aspiração insensata de transformar numa superfície a linha de nossa vida, e corremos então em ziguezague, vagando aqui e ali como fogos-fátuos e não conseguimos nada.

Pois é, Schopenhauer não sonhava com a facilidade do mundo virtual de hoje e já constatava a eterna insatisfação do ser humano, imagine hoje, quando tudo é tão rápido, tão acessível.

O mundo nos apresenta muita facilidades, um farto cardápio de tudo, basta baixar um aplicativo e, em minutos, você tem à mão a comida preferida, o livro desejado, existe um cardápio até para o mundo dos afetos, que o digam os aplicativos de relacionamentos.

Se não der certo esse, vamos para o próximo e, se não der certo também, vamos para o próximo, e assim sucessivamente. É aí que nos damos conta de que não é somente nós que consumimos, mas que também somos um objeto de consumo, e o pior, dada a quantidade de oferta, um cardápio de gente oferecida a granel. Relações vazias ou como diria Bauman, líquidas! As pessoas aparecem e somem da sua vida com a mesma rapidez. Gente descartável.

A escolha! Não é difícil encontrar aquele casado que, depois de se acostumar, fica pensando que, talvez, se estivesse solteiro, estaria mais feliz, e por sua vez, o solteiro que deseja um casamento… Ah! Se eu tivesse uma companhia, estaria mais feliz. E o namoro? Também sofre desse mal.

Há um grande paradoxo: focamos na falta, no que deixamos para trás! A realidade é que, se eu tivesse escolhido outro filme, outra comida ou outro parceiro amoroso, eu seria mais feliz?

Escolhemos a insatisfação em vez de viver e sentir de fato a nossa escolha. Triste constatação, a tendência é só valorizarmos as pessoas quando as perdemos.

Um ente querido, o amor da nossa vida, nós nos adaptamos com a convivência e a sua presença é natural, não mais desejo – eu já tenho –, e aí essa pessoa, que já não é novidade, um dia, vai embora e só com a falta dela nos damos conta do que perdemos.

Como lidar com isso?

Por que não apreciamos o momento agora, por que ficamos pensando no que deixamos para trás ou num futuro que é apenas “futuro”, “expectativa”?

Não há nada de errado em pensar no futuro, só não devemos nos esquecer de viver o presente, apreciar o agora, quando não temos nenhuma ideia do que está acontecendo ou juízo de valor. Talvez assim conseguíssemos viver a verdade, o que acontece de fato, sentir todos os sabores, todas as emoções de forma consciente, com entrega, mais ou menos assim: “Aqui, agora é exatamente o lugar onde eu escolhi estar.”

Na vida, precisamos entender sobre nossos desejos, o que é ou não importante. Entender o que importa é a chave para uma vida melhor.

Sabe, sempre acreditei que o que mais importava na vida era a vida, até que, num dado momento, minha filha, com poucos meses de vida, teve um problema de saúde muito grave e encontrava-se no leito de um hospital, em coma, entre a vida e a morte.

Desesperadamente, pedi a Deus pela vida daquela pequena que acabara de chegar ao mundo, pedi com toda fé que Deus levasse a minha vida e poupasse a dela, não me importava de fato, meu amor naquele momento era muito maior que qualquer coisa, eu trocaria sim, sem titubear, minha vida pela dela. Naquele momento, percebi que nada, nada na vida era mais importante que o amor.

Enfim, Deus não fez a troca comigo, mas permitiu que minha pequena sobrevivesse e um dos momentos mais felizes da minha vida foi quando cheguei em casa com ela em meus braços. Sim, um momento feliz que eternizei em meu coração, ficou e está vivo aqui dentro. Ela cresceu forte, saudável. A presença não é tão constante, mas o amor não é transitório, nem vulnerável.

Aprendi que mais do que coisas, expectativas, o que realmente importa é o amor e a paz; a felicidade é consequência.

 

Direitos autorais da imagem de capa: Henrique Nery/Unsplash.

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