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“Como serão as nossas manhãs sem a eloquência de Boechat?” – Por Fabrício Carpinejar

O ano de 2019 começou com uma sucessão de tragédias em nosso país. Primeiro o rompimento da barragem de Brumadinho, Minas Gerais, seguido pelo temporal no Rio de Janeiro, que causou a morte de muitas pessoas e deixou outras desabrigadas. Novamente, no Rio de Janeiro, o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo, que deixou 10 vítimas fatais, todos jogadores da categoria de base do time, adolescentes com idades entre 14 e 16 anos.


O Brasil inteiro estava de luto por todas essas vidas perdidas em pouco mais de um mês de ano novo, e se mobilizou para ajudar todos os que ficaram vivos e tinham que conviver com a realidade que sobrou.

Como se todos esses acontecimentos já não fossem suficientes, no dia 11 de fevereiro de 2019, mais uma grande tragédia deixou milhões de brasileiros tristes: a morte de jornalista Ricardo Boechat, na colisão de um helicóptero com um caminhão na Rodovia Anhanguera.

Richardo tinha 66 anos, quase 50 deles foram dedicados ao jornalismo. Em todo esse tempo, ele conquistou o seu espaço graças à competência e inteligência, e se tornou um dos jornalistas mais respeitados de todo o país. Trabalhou nos principais veículos de comunicação do país e sempre teve um compromisso sério com a verdade.

Sua personalidade se refletia na profissão. Boechat não tinha medo de falar a sua verdade e defender o seu ponto de vista. Defensor da democracia, ele era um ídolo para muitos brasileiros e respeitado até mesmo por aqueles que não compartilhavam as mesmas opiniões.


Sua morte foi uma grande perda, para o jornalismo e também para o mundo, pois Boechat era um ser humano incrível.

Muitas homenagens foram feitas a ele, entre uma delas um texto muito reflexivo e emocionantes de Fabrício Carpinejar, também jornalista, cronista e poeta brasileiro.


Trazemos abaixo o texto de Carpinejar, publicado no jornal Zero Hora, GaúchaZH. Confira!

Não se vive mais, só se enterra. Por que tantas mortes? Já não havia como suportar a população dizimada de Brumadinho, os dez adolescentes sacrificados no ninho do Urubu, as sete vítimas do dilúvio do Rio, e, agora, mais essa lâmina cortando a nossa voz de novo: morre Ricardo Boechat, 66 anos, um dos melhores jornalistas brasileiros, três prêmios Esso, âncora da rádio BandNews FM, e do Jornal da Band, na TV Bandeirantes.

Ele estava no helicóptero que caiu sobre um caminhão na ligação do Rodoanel com a rodovia Anhanguera, em São Paulo, nesta segunda-feira (11).

Que provação é essa? Que privação é essa? Assistimos a um interminável enterro, um insuportável transporte de caixões com a bandeira brasileira. Caronte não para de carregar almas daqui. Brasil é Hades.

Como serão as nossas manhãs sem a eloquência de Boechat? Ele falava bonito cada notícia, como se estivesse recitando Fernando Pessoa, nunca perdendo a linha de raciocínio, sem cacoete verbal: límpido pensamento sonoro.

Tinha uma máquina de escrever entre os dentes. Soprava páginas e derrubava mitos e preconceitos.

Irônico, argumentativo, combativo, um dos últimos adeptos da retórica do jornalismo. Defendia exaustivamente as suas ideias e apenas se acalmava ao descascar as aparências do poder e descartar todos os pontos de vista. Ganhava a discussão pelo fôlego e pelas metáforas.

Qualquer um conhece Boechat, da tevê ou do rádio ou do jornal (trabalhou nos jornais O Globo, O Dia, O Estado de S. Paulo e JB e foi comentarista no Bom Dia Brasil, da TV Globo): um aristocrata de cabeça lisa, com o olhar confiante e sedutor. Impossível virar os olhos com ele em ação: hipnótico, convincente, impositivo.

Gostava de uma boa briga. Envolvia-se em uma polêmica semana sim e outra também.

Era um duelista à moda antiga, com um lenço dobrado no terno e ferro na lábia, daqueles que ainda se dispunham a lutar para manter a honra e a palavra, custe o que custasse, em confrontos intensamente emocionais contra os desmandos do país.

Até os desafetos respeitavam a sua opinião. Até os adversários não deixavam de ouvir, ver, ler Boechat. Até a morte deve ter pedido desculpa.

Emocionante!

Deixamos aqui nossos sentimentos à família e amigos de Boechat. Certamente, o jornalismo brasileiro não será mais o mesmo.


Direitos autorais da imagem de capa: Reprodução





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