Comportamento

“Como uma pessoa gorda igual você pode engravidar?”: mãe relata violências médicas que sofreu

3 capa Como uma pessoa gorda como voce pode engravidar mae relata violencias medicas que sofreu

Saionara conta sobre os preconceitos médicos que sofreu durante sua gravidez por ter obesidade, e faz um forte relato sobre suas duas gestações.



Existem várias manifestações de violência às quais devemos ficar atentos. Se engana quem pensa que a agressão é apenas física, deixando marcas visíveis no corpo da vítima. Existem outras formas de causar o mal em um indivíduo, que não deixam marcas aparentes em quem sofre, mas que mexem com o psicológico e até com os bens da pessoa.

Além da violência física, existe também a violência psicológica, que é extremamente comum, mas que pode causar um pouco de dúvidas nas vítimas, que não sabem ao certo se sofrem ou não algum tipo de abuso, mesmo sentindo que tem algo errado. Envolve ameaças, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância e perseguição, insulto, chantagem, exploração, entre outros.

Também existe a violência sexual, que envolve qualquer conduta que constranja a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força. Qualquer forma de controlar os direitos reprodutivos das mulheres se encaixa nessa forma de violência, como proibir ou obrigar que ela use anticoncepcional, obrigar que ela aborte ou impossibilitar que elas exerçam seus direitos reprodutivos e sexuais.


Existe também a violência patrimonial e a moral. A primeira é quando o agressor tenta controlar dinheiro, bens ou mesmo destruir documentos pessoais ou objetos que pertençam à vítima. A segunda é qualquer conduta que inclua calúnia, injúria e/ou difamação.

Isso significa que a violência, prevista na Lei Maria da Penha, vai além do abuso físico, podendo concentrar outras formas simultaneamente. O forte relato de Saionara Angioletti, mãe de duas crianças, fala sobre violência obstétrica e as várias nuances dos abusos, que podem partir de pessoas que não imaginamos, de formas que nem sempre conseguimos identificar rapidamente.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/@saionaraaang.

Em uma publicação no seu Instagram, Saionara fala um pouco sobre sua vida e sua relação com o corpo e as duas gestações. Há cerca de sete anos, ela engravidou do seu primeiro filho, Bernardo, mas teve uma gravidez de alto risco, e precisou ser afastada do trabalho para não perder o bebê. Sua pressão oscilava demais, e ela engordou muito, chegando a pesar 128 kg.


Saionara precisou fazer exames todas as semanas, tomar muitos remédios e passar praticamente todos os meses dentro do quarto, sob o risco de desenvolver pré-eclâmpsia, que é quando a pressão arterial descontrolada da mãe pode afetar o bebê, podendo acarretar um parto prematuro e até a morte do filho.

No dia 10 de junho ela foi à uma consulta de rotina, mas não conseguiu ser atendida porque sua obstetra estava doente, e marcou uma nova consulta para o dia 17 de junho. Infelizmente, no dia 13 sua bolsa acabou se rompendo, e precisou ir às pressas para o hospital, tendo que ser atendida por uma médica plantonista.

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Direitos autorais: reprodução Instagram/@saionaraaang.

Antes mesmo de começar o atendimento, a médica lhe perguntou como uma pessoa gorda como ela tinha engravidado. Desde o início foi possível perceber que seu atendimento não seria bom, e que sua tortura havia começado já com a primeira pergunta. Saionara passou mais de 40 horas ouvindo todos os tipos de xingamentos. Tomou medicação para induzir a dilatação, mas o remédio não fazia efeito.


Ela passou por soro, banho quente, mas nada funcionava, não existia dilatação. A médica gritava o tempo todo para Saionara, sendo invasiva, grosseira, rude e abusiva. Ela chorava de dor, e chegou a desmaiar na maca. Sua mãe entrou na sala, para saber como estava, e quando se deparou com a filha desacordada, implorou para a médica que fizesse uma cesárea.

A médica disse que não fazia cesárea em gorda, e que ela deveria ter pensado nisso antes de engravidar. E finalizou, dizendo que não faria diferença fazer ou não a cirurgia, Saionara morreria do mesmo jeito. Ela estava sem forças para continuar, não havia comido nada, pois as enfermeiras tinham a esperança de que a médica faria a cirurgia.

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Quando acordou, uma enfermeira lhe avisou que teria troca de plantão, e que a nova médica salvaria sua vida. A nova médica disse que elas tinham 5 minutos para tentar salvar os dois, que não tinha o que fazer, mesmo sem dilatação ou contrações, ele teria que nascer, já que estava coroado.


Saionara precisou parir sem contrações e sem dilatação suficiente, usando apenas sua própria força para expulsar o bebê de dentro do útero. Durante esse doloroso processo, a médica pediu que duas enfermeiras subissem em sua barriga para forçar a saída do seu filho. Esse procedimento é chamado de manobra de Kristeller, e é considerado uma forma de violência obstétrica, aquela que ocorre por médicos especializados em fazer partos e cesáreas.

Às 23h40 do dia 15 de junho, Saionara deu à luz a seu filho, Bernardo, com 4 kg. A equipe deixou apenas que eles se vissem por 3 segundos, e a médica disse que iria tentar “consertar” o que tinha acontecido e que tudo ficaria bem, mas ali começava outra batalha em sua vida.

Ela levou 36 pontos no “conserto” da médica, mas, no fim da noite, agradeceu por ter conseguido passar pelo seu tormento. Saionara percebeu que não conseguia se mexer e nem se levantar, mas imaginou que aquilo era porque havia levado muitos pontos, e que era normal. Ela recebeu alta, e pode voltar para casa com sua família, acreditando que tudo havia acabado.

Foi quando ela começou a evacuar pelo canal vaginal de forma involuntária, ela pediu a Deus que seu sofrimento acabasse, mas precisou voltar ao hospital. A médica a diagnosticou com uma fístula retal, uma condição médica extremamente rara, em que o paciente possui uma ligação entre o canal retal e o vaginal.


Saionara precisou passar por uma cirurgia de emergência, acreditando que em dois dias, no máximo, estaria de volta em casa. Depois do procedimento, que durou 6 horas, um dos médicos disse que existia 12 cm de abertura, e que o útero também havia sido lacerado. Eles haviam feito tudo o que puderam, mas sem a cicatrização, ela precisaria colocar a bolsa.

 




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Uma publicação compartilhada por Saionara Angioletti Athayde (@saionaraaang)

Foram 28 dias de internação no total, à base de morfina e outros sedativos, para suportar tudo o que estava passando. Ela precisou fazer a ileostomia, procedimento que faz um orifício no abdômen para colocar a bolsa para saída das fezes, e mesmo assim tentou encarar tudo como um milagre do Senhor. Pensou que seu filho era seu maior bem, e isso a confortou.

Sua adaptação não foi fácil, foram inúmeros dias frustrantes, se sentindo triste e machucada por cinco meses. Os médicos acreditavam que ela poderia retirar a bolsa dentro de algum tempo, mas Saionara recebeu a informação de que precisaria perder, no mínimo, 20 kg para conseguir retirá-la. Seu médico sugeriu que fizesse uma cirurgia bariátrica, mas ela era contra e relutou muito.

No ano seguinte, depois de muito brigar, decidiu se submeter à cirurgia, com 141 kg, que foi um sucesso. Dois meses depois, uma surpresa: Saionara estava grávida novamente. Ela sentiu desespero, seu coração disparou, pois jamais havia imaginado que teria outro filho nessas condições.

Saionara passou a gestação perdendo peso, e tentando se manter em pé por ela e por sua filha. A batalha foi dura, muitos profissionais acreditavam que o bebê não passaria da 16ª semana, mas, felizmente, passou. Depois, ela precisou encontrar um profissional que aceitaria fazer uma cesárea com ileostomia pós-bariátrica. Foram vários médicos envolvidos na sua cirurgia, mas no dia 14 de julho, sua filha chegou ao mundo com 34 semanas.

Ela conseguiu receber alta e pode voltar para casa, com sua filha e sua “bolsa”, sabendo que tudo aquilo era um milagre, a agradecendo a Deus todos os dias por isso.

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