Consertar para quê?

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Consertar, pra quê?
Sou da geração que tinha a bala soft como um dos maiores perigos. (Pra quem não conhece, é uma balinha altamente escorregadia que, “reza a lenda”, se fosse engolida iria parar misteriosa e precisamente na glote das crianças, causando sufocamento instantâneo. A “bala da morte” como foi apelidada, era o terror das avós. Pra comer uma dessas, só com total supervisão de um adulto, e olhe lá).



Telefone fixo era luxo. Celular, artigo raríssimo.

Às vezes me pergunto, como pudemos sobreviver a uma fase onde íamos pra rua e ninguém sabia o nosso paradeiro?

Tá certo que não tinha muita novidade, gadgets e tanta parafernália que a gente acha que é útil. Mas a gente vivia bem até.


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Sou da geração que nasceu pra revolucionar o mundo. Alto potencial e expectativas na gente. Crianças índigo, geração Y.

Cresci aprendendo com o ardor do merthiolate. Tendo que valorizar todos os presentes de natal e que eles deveriam ser bem cuidados, pois não seriam substituídos.


Os produtos eram caros, mas duravam uma vida toda, então o conserto valia a pena. E os senhores que consertavam coisas sempre tinham serviço.

A roda da indústria girava lenta, mas parecia funcionar perfeitamente.

Lembro das várias vezes que meu pai levava coisas para o conserto.

Naquela época era comum e porque não dizer ‘óbvio’ consertar algo que havia quebrado.
Sou de uma geração onde vi e aprendi que coisas que quebram são consertadas. TV’s, bicicletas e relacionamentos.

Uma geração que foi ensinada através de exemplos que casamentos eram “pra sempre”.
E uma geração que hoje assiste e vive relacionamentos que são simplesmente jogados fora. Assim como as TV’s. (Afinal, o preço do conserto sai mais caro que um novo.)

Quando não está bom com alguém, é tão mais fácil baixar o Tinder de novo e pronto, não é? Lá estará uma novidade que fará o feliz por um tempo até ter de perder a graça e ter que encarar de novo a vida como ela sempre foi.

O Professor Leandro Karnal, faz uma análise deste momento que vivemos:
“Nós não consertamos mais coisas e nós não consertamos mais relações humanas, nós trocamos. E ao trocar sapatos, computadores e pessoas que amamos por outras, vamos substituindo a dor do desgaste pela vaidade da novidade. Ao trocar alguém, creio, imediatamente eu me torno alguém mais interessante e não percebo que aquele espelho continua sendo o drama da minha vaidade. Que o que eu não tolero na pessoa anterior é que ela mostrou o quanto eu estou decaindo, envelhecendo ou sou desinteressante. E na nova pessoa eu exploro o quanto eu quero ser interessante, instigante e assim por diante.”

Há uma frase que diz “Onde não puderes amar não te demores”. Até concordo. Ninguém é obrigado a viver amargando num barco furado. Quando não dá mais, paciência. Obrigada, tchau.

Mas alguém que simplesmente desiste de um relacionamento sem antes sequer tentar, está antes de tudo renunciando a si. Negando a si a chance de se analisar, se melhorar e aproveitar a oportunidade que o outro dá ao ser um espelho, pra finalmente se ver.

De que adianta trocar de celular, de bolsa, de namorada (o), se insistir em continuar obsoleto? Repetindo os velhos erros e padrões, mantendo comportamentos infrutíferos, optando aprender pela dor, se anulando e se excluindo perante a responsabilidade consigo e com o outro?

“Consertar” vem do latim “consertāre” e que quer dizer ‘ligar, atar, juntar partes entre si’.
Quem sabe os relacionamentos sejam, sobretudo, a nossa grande chance de consertarmos algo em nós. Ligações estas que muitas vezes são descartadas, às vezes sem qualquer remorso, mas que seriam ótimas professoras, tendo como objetivo primordial mostrar quem somos através do outro. Pois vendo no outro aquilo que me incomoda, que me irrita, que faz cansar ou desistir, na verdade estamos vendo a nós mesmos. E ao aceitar e compreender o outro eu estou fazendo o mesmo comigo.

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Que a renovação venha sim, mas como consequência do amadurecimento. Se tiver que vir, que venha como um presente, um mérito por ter entendido e aprendido tudo o que havia de ser.

Estela Meyer

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