5min. de leitura

CONSTRUINDO FÍGADOS…

Acreditei por tanto tempo ser tão dependente do amor dos outros que nunca iria me apaixonar. Sempre , sempre atuando, atuando pra satisfazer o amor alheio e assim foi como conheci meus amores, parceiros, pais dos meus filhos, sim, pais, mais de 1. Ou no trabalho, na vizinhança, numa viagem inesperada, no passado. Estávamos todos atuando, isso me faz perguntar a mim mesma se sobreviveríamos a nossa própria pele? Essa história de construir uma vida em cima de um erro..me parece tão frequente. Minhas inseguranças..eu era sempre questionada como iria conseguir continuar trabalhando aos 5, 7, 8 meses de gravidez, já que na maior parte da minha vida eu estive grávida, tenho 4 filhos , sendo uma gravidez de gêmeos. Minhas dúvidas…a questão não era “perder” o trabalho, mas porque me achavam incapacitada em continuar meu trabalho, meu legado, minha competência, só porque eu decidi engravidar, ou nem decidi tanto assim, mas estava.


construindo fígados2

Um dia, em uma quase e última relação…a pessoa me disse: Uma criança nos dará muita força! Não!! Isso não é verdade, vamos desconstruir esse romantismo em volta da maternidade. Já passei por isso algumas vezes, posso dizer como funciona.

Os dois querem, ou simplesmente acontece. No meio do caminho algo surge, como de repente uma demissão, uma longa viagem, um problema na gravidez que exija repouso, um imprevisto qualquer. Nós mulheres continuamos fazendo o trabalho. Sim, nós! Nós levamos na barriga, o filho que é dos dois, ambos quiseram ou se comprometeram com a escolha. Mas um, segue sua vida normal, trabalha, sai, faz compras, lê livros e jornais, continua não recolhendo as cuecas espalhadas pelo chão. Chega do trabalho, da um “beijinho” na esposa, pergunta como foi o dia dela e vai pra frente do computador, da televisão…do que seja. E ela continua ali….e diz: Ei, não vai me perguntar como foi meu dia? Então ele, suspira fundo e diz: Então como foi seu dia? A resposta vem assim… “bem ..hoje  fiz mais um pedacinho do fígado, acho que consegui terminar as unhas dos pezinhos e mãos, comi chocolate, então acho que ajudei o bebê a ganhar peso também”, como fiquei muito enjoada, ele deve ter cabelos grandes. Além disso fiquei aqui nessa posição o dia todo, pois estou em uma gravidez e risco e não posso sequer descer as escadas dos 8 andares que moramos, pois não há elevador.


Com um ar devastador e a cretinice se espalhando pelos poros ele suspira, ri e diz, não seja assim tão negativa. Ela levanta..vai pro banheiro, entra no chuveiro morno e só deixa a água cair, sobre os peitos inchados, diferentes, sobre as pernas mais grossas e sensíveis, sobre os pés avermelhados da má circulação, deixou a água cair sobre seu rosto e pescoço, pelo nariz que mais parecia uma batata. Os cabelos estavam mais secos e um dos dentes amolecido, como se quisesse pular da boca, era cálcio que lhe faltara para abastecer o ser ali dentro daquela barriga enorme, daquele mundo novo que crescia só nela. Para ele, era fantástico, a barriga significava que era mais real, que de fato entraria em uma nova fase. Para ela significava o pra sempre. E que a frase do início do texto ao invés de ser desconstruída, ganhava um novo personagem. Ela não tinha tempo outra vez para amar a si mesma, agora o amor dela era pra sempre, mas apenas por aquele que cresceu e nasceu dela.

___


Escrito por Vânia Galceran

Publicado originalmente em: Café sem culpa





Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.